quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O maior massacre da história da humanidade

Por Emir Sader


12 de outubro marca o início dos maiores massacres da história da humanidade. A chegada dos colonizadores, invadindo e ocupando o nosso continente – ate aí chamado Aby ayala pelas populações indígenas -, representava a chegada do capitalismo, com o despojo das riquezas naturais dos nossos países, da destruição das populações indígenas e a introdução da pior das selvagerias: a escravidão. Chegaram com a espada e a cruz, para dominar e oprimir, para impor seu poder militar e tentar impor sua religião.



Centenas de milhões de negros foram arrancados dos países, das suas famílias, do seu continente, à força, para serem trazidos como raça inferior, para produzir riquezas para as populações ricas da Europa branca e colonizadora. Uma grande proporção morria na viagem, os que chegavam tinham vida curta – de 7 a 9 anos -, porque era mais barato trazer nova leva de escravos da Africa.



Os massacres das populações indígenas e dos negros revelava como o capitalismo chegava ao novo continente jorrando sangue, demonstrando o que faria ao longo dos séculos de colonialismo e imperialismo. Fomos submetidos à chamada acumulação originária, aquele processo no qual as novas potências coloniais disputavam pelo mundo afora o acesso a matérias primas, mão de obra barata e mercados. A exploração colonial das Américas fez parte da disputa entre as potências coloniais no processo de revolução comercial, em que se definia quem estaria em melhores condições de liderar o processo de revolução industrial.



Durante mais de 4 séculos fomos reduzidos a isso. Os ciclos econômicos da nossa história foram determinados não por decisões das populações locais, mas das necessidades e interesses do mercado mundial, controlado pelas potências colonizadoras. Pau brasil, açúcar, açúcar, borracha, no nosso caso. Ouro, prata, cobre, carne, couro, e outras tantas riquezas do novo continente, foram sendo reiteradamente dilapidados em favor do enriquecimento das potências colonizadoras europeias.



Assim foi produzida a dicotomia entre o Norte rico e o Sul pobre, entre o poder e a riqueza concentrada no Norte – a que eles chamavam de “civilização” – e a pobreza e a opressão – a que eles chamavam de “barbárie”.



O início desse processo marca a data de hoje, que eles chamavam de "descoberta da América", como se não existissem as populações nativas antes que eles as “descobrissem”. No momento do quinto centenário buscaram abrandar a expressão, chamando de momento de “encontro de duas civilizações”. Um encontro imposto por eles, baseado na força militar, que desembocou no despojo, na opressão e na discriminação.



Não nos esqueçamos disso, demos à data seu verdadeiro significado, que nos permita entender o presente à luz desse tenebroso passado de exploração e de massacre das populações indígenas e das populações negras.

 
FONTE: Blog do Emir

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Entrevista com o historiador Josep Fontana


Os historiadores são educadores que devem ajudar a formar pessoas a pensarem de forma autônoma e crítica, que saibam entender e agir sobre o mundo. Quando falo em educação não penso só nas situações escolares, mas numa atuação pública geral dos historiadores (nos meios de comunicação, em órgãos governamentais e outros), que também possui um potencial pedagógico importante.


 
Josep Fontana i Lazaro nasceu em 1931, formou-se em História na Universidade de Barcelona e doutorou-se na mesma instituição em 1970. Foi professor, entre outras áreas, de História da Espanha (séculos XIX e XX) e História Econômica, na Universidade de Barcelona, na Universidade Autônoma de Barcelona e na Universidade de Valência. Entre suas obras publicadas no Brasil encontramos História: análise do passado e projeto social, Introdução ao Estudo da História Geral, A Europa diante do Espelho, A História dos Homens e A História depois do Fim da História, todos publicados pela Edusc, de Bauru. Foi um dos fundadores e é membro do conselho da Editora Crítica, de Barcelona. Escreve semanalmente no periódico alternativo eletrônico Sin Permiso (http://www.sinpermiso.info/). Atualmente, Fontana trabalha no Instituto Jaume Vicens i Vives, que parece um bunker do conhecimento, no andar mais alto do prédio da Universidade Pompeu Fabra, nas bordas do bairro Gótico, no acolhedor centro de Barcelona, muito perto da Vila Olímpica e do antigo porto, hoje revitalizado. O Instituto possui uma grande área física, ocupada por extensa biblioteca (lotada de alunos de graduação e pós-graduação), em grande parte formada por doação do acervo pessoal (37 mil livros, monografias e teses) do professor Fontana. Na manhã do dia 2 de junho de 2010 ele gentilmente concedeu esta entrevista:


Pergunta: Como foi sua experiência de estudar e formar-se como historiador durante o Franquismo? Como era o ambiente universitário?

Josep Fontana: Se alguma coisa poderia fazer sentido naquela época, era estudar a História. Foi um tempo em que se faziatodo o possível para o passado ser negado, esquecido e desfigurado. O esforço para recuperar o passado tinha um sentido muito além da importância acadêmica, tinha um valor cívico. Eu me formei com o Professor Jaume Vicens i Vives (1910-1960) e tenho aqui até hoje uma carta em que ele afirma que a História é importante, a Universidade também é importante, mas mais importante que tudo é o País. E se pode servir ao País através da ciência histórica, com o trabalho de influir sobre a consciência coletiva das pessoas. Vives foi muito importante em minha formação inicial. Então, estudar história num meio tão hostil como o Franquismo era um estímulo, um desafio. Isto também tomou muito impulso com a minha convivência com Pierre Vilar, que defendia que o historiador tem uma responsabilidade sobre a consciência coletiva. Além disso, eu estava envolvido com uma militância clandestina, que era outra forma de lutar.


Pergunta: No Brasil, Jaume Vicens i Vives é pouco conhecido. Qual a importância deste historiador para a Espanha e para a Catalunha?

Josep Fontana: Vicens i Vives era um dos poucos historiadores espanhóis que, na época de sua atuação, estava em sintonia com outros historiadores do resto do mundo, como afirmava Raymond Carr [historiador inglês especialista em História e Historiografia Espanhola]. Era um medievalista especializado nos séculos XV e XVI. Mas num determinado momento, fez uma viragem na carreira e insistiu na importância da História Contemporânea. Era muito comum naquela época, tanto na Catalunha como no restante da Espanha, a noção de que a história só deveria estudar até o final do Antigo Regime. Vicens i Vives defendeu o estudo dos séculos XIX e XX, quando a Catalunha foi palco de intensas lutas políticas e sociais. Isto era visto pelos conservadores como antipatriótico. Além disso, Vives desenvolveu um trabalho muito sério em história econômica, em escala global, publicando um primeiro manual de história econômica [Historia social y econômica de España y América. Barcelona: Teide, 1957] que por muitos anos influiu na formação de historiadores e economistas. A morte de Vives foi uma tragédia; ele morreu muito cedo, tinha apenas 50 anos. Certamente teria ainda muitos anos de abundante produção. Meu trabalho de graduação, sobre a segunda metade do século XVII [El Comercio exterior de Barcelona en la segunda mitad del siglo XVII, 1664-1699] foi em parte sugerido e estimulado por ele; minha tese doutoral sobre a queda do Absolutismo [La Quiebra de la Monarquía Absoluta, 1814-1820 : la crisis del Antiguo Régimen en España], também teve o estímulo dele.


Pergunta: Em sua tese de doutorado, sobre a quebra da Monarquia Absoluta, além da reconstrução dos conflitos políticos “do alto” da sociedade, há homens pobres, camponeses, que intervêm nos eventos. Quais são as dificuldades para estudar os “de baixo” nas fontes escritas geralmente pelos “de cima”?

Josep Fontana: Isto é um problema permanente. Mas sempre conseguimos depoimentos e testemunhos de camadas médias, de setores sociais que não são somente os “de cima”. Detalhando mais, há tesouros de fontes muito importantes, que mal foram estudados, como, por exemplo, a correspondência particular das pessoas. O que não podemos esquecer é que a pesquisa histórica não deve apenas levantar os acontecimentos e colocá-los numa sequência cronológica para explicar como chegamos até hoje, pois isso provoca uma sucessão inevitável de eventos, como um encadeamento predeterminado. Devemos entender que, a cada momento, as expectativas de futuro estão abertas, e são muitas. Não há nenhuma certeza de como as coisas vão se desenvolver, de quem tem razão. Aí é que reside a questão: devemos procurar, em cada época, o que as pessoas pensam e entender o que desejam. Entender as ilusões nas quais acreditam, os erros que cometem, os temores que os conduzem a fazer coisas que podemos considerar disparatadas. Eu tive a sorte de trabalhar com um bom material produzido pelos “de cima”, as Atas do Conselho de Ministros, as Atas do Conselho de Estado e os Diários das Sessões das Cortes [parlamento espanhol], que são fontes riquíssimas e expressavam o que os grupos dominantes comentavam e pensavam. Bem diferente do que eles publicavam. É muito importante saber como pensam os “de cima”. É importante saber como percebem e decidem certas coisas, em outras dimensões. No século XIX temos outra vantagem, que é a existência da imprensa e sua inserção social em muitas camadas além do grupo dominante. Há uma grande literatura popular, baseada em romances. Há acervos com diários e cartas particulares, de pessoas comuns, o que é muito importante para se investigar o que as pessoas estavam pensando. Para mim isso foi fundamental para entender o sentimento dos pequenos proprietários camponeses ante um movimento como o Carlismo [movimento político liderado por forças ligadas ao Antigo Regime contra políticos constitucionais, em torno de linhas sucessórias ao trono espanhol]. Um pesquisador localizou uma caixa de cartas e diários, de uma família camponesa, onde mostra e interpreta a evolução da atuação deles.


Com essa documentação é possível avaliar o que sentiam a cada momento. Num primeiro momento, os camponeses reagem às políticas liberais, que resultavam em aumento de impostos. Então esses grupos de guerrilheiros vão subsistindo com o dinheiro que recebiam de sacerdotes e de monastérios. Quando este dinheiro termina, passam a saquear as populações. Praticam roubos, sequestros, ameaçam matar o gado. Não vivem mais como simples camponeses. Precisam sobreviver entre a fome e a ação dos arrecadadores do Estado. Isto me recorda uma situação semelhante, quando houve a Guerra Civil Russa [1917-1921], logo no início da Revolução Bolchevique. Um político britânico perguntou a um camponês quem ele desejava que ganhasse a guerra, os “vermelhos” ou os “brancos”? Ele respondeu: os que roubarem menos! Então é preciso compreender o que move as pessoas a cada momento. Estes conflitos são complexos. Não basta entendermos as leis, os discursos, as proclamações oficiais, se não conseguirmos nos aproximar e compreender como as pessoas estão agindo.


Pergunta: O Carlismo foi claramente um movimento contrarrevolucionário. Mas será que podemos considerar a ação dos camponeses na primeira [1833-1840] e segunda [1846-1849] guerras carlistas como parte deste processo contrarrevolucionário? A historiografia atual parece não considerar essas especificidades. O senhor mesmo sempre defendeu um espaço importante de autonomia camponesa nestas lutas durante a primeira metade do século XIX. Como o senhor avalia esta questão?

Josep Fontana: Inicialmente, devemos compreender que em um movimento que parte do alto se agregam pessoas com os mais diferentes objetivos. São promessas de felicidade, de um governo justo, sem abusos. Mas os que vêm de baixo possuem ideias e projetos próprios, e num momento determinado, quando o inimigo comum está derrotado, passam a defender suas próprias ideias abertamente, como já aconteceu muitas vezes. No caso da chamada segunda guerra carlista − mais restrita a Catalunha, Valência e País Basco –, é preciso se entender a complexidade do movimento: ao lado da ideologia conservadora carlista, havia ideias republicanas e revolucionárias de 1848 e tudo isto convivia com as dificuldades de vida do campesinato. Depois da Revolução de 1868 [com a instalação da 1.ª República], Fernando Garrido [intelectual republicano e socialista] registrou o depoimento de um antigo guerrilheiro da segunda guerra carlista: em todo o Ampurdán [região próxima dos Pirineus e da fronteira francesa] se podia facilmente recrutar guerrilheiros para o Carlismo ou para a República. Para a República, por um “duro” [moeda espanhola de baixo valor]; para a Monarquia, por dois “duros”. Na segunda guerra carlista há momentos nos quais republicanos lutam ao lado de carlistas contra os monarquistas constitucionais. Ao longo do movimento os camponeses vão cada vez mais se identificando com o republicanismo e cada vez menos com o carlismo. Há regiões, como o sul, a Andaluzia, onde o carlismo nunca foi forte. Esses temas devem ser estudados região por região. Mas o que é importante é tentar compreender as ações dos “de baixo” em seus termos, que nem sempre são os termos dos “de cima”. Isto nos dá um panorama muito mais complexo.


Pergunta: Em sua carreira, o senhor trabalhou com dois historiadores muito influentes no Brasil: Pierre Vilar e Edward Thompson. Como foi sua experiência com eles?

Josep Fontana: Tive três importantes mestres. O primeiro foi Ferran Soldevila, historiador republicano catalão, que dava aulas clandestinas, na sua casa, depois de voltar do exílio. Era um antifranquista que tinha de se pronunciar com muito cuidado. O segundo mestre foi Jaume Vicens i Vives, na Universidade de Barcelona. Apesar de não termos as mesmas idéias políticas – Vives era mais moderado, e eu era mais a esquerda −, compartilhava sua visão de história como algo importante para o País. Ao longo de meu curso na Universidade, durante o doutorado, quando eu comecei a trabalhar com várias questões do século XIX, Vives não se sentia habilitado para acompanhar e me indicou para Pierre Vilar, que foi meu terceiro mestre. Vilar foi um grande amigo e interlocutor; troquei correspondência com ele até sua morte. Tivemos muitas conversações ótimas, conversávamos mais sobre o presente do que sobre o passado, sobre diversos assuntos do mundo atual. Ele sempre foi muito gentil e atencioso. Ele lia o que eu escrevia e me enviava seus textos também. Foi uma relação muito enriquecedora. Com Thompson foi diferente. Para mim ele foi um descobrimento. Conheci o livro dele, The making of the English working class, obra impactante, que teve uma primeira edição espanhola que foi muito malfeita, um desastre. Depois tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, entrevistei-o sobre sua trajetória intelectual e política, sobre as experiências do irmão dele [Frank Thompson, capturado e fuzilado pelos nazistas na Bulgária, em 1944], e conversávamos sobre o que poderia ter sido a Europa do Pós-Guerra com a derrota do fascismo. Uma Europa que poderia ter sido muitas coisas, mas não foi. Porém meu contato com Thompson foi muito tardio, eu já era um historiador formado. Mas nos identificávamos em muitos sentidos, na visão de história e na visão política. É preciso lembrar que Thompson sempre se manteve muito independente, sempre caminhou contra a corrente, nunca se deixou enredar no senso comum ou no discurso da moda. Ele tinha um diálogo direto com estudantes e trabalhadores, principalmente na sua campanha pela paz [contra a instalação de bases militares com armas nucleares norte-americanas na Europa ocidental, movimento muito forte nos anos 1980]. Depois passamos muito trabalho numa segunda tradução espanhola de La Formación de La Clase Obrera em Inglaterra [Barcelona: Ed. Critica, 1989]. Trabalhei com muito cuidado com um colega historiador, depois pedimos ajuda a um catedrático inglês que trabalhava na Universidade de Barcelona, mas havia palavras e expressões que nem este inglês conhecia. Ao final, enviamos uma lista com algumas interrogações ao próprio Thompson. Foi um desafio muito difícil traduzi-lo ao castelhano. Sempre admirei a firmeza de convicções dele. Quando houve os movimentos de 1968, e suas repercussões teóricas na historiografia, com a chamada “viragem linguística”, que ficou tão famosa nos anos subsequentes, Thompson manteve suas convicções e continuou produzindo importantes trabalhos.


Pergunta: Em seu livro La Historia después del fin de la Historia há uma forte defesa de uma história critica e uma série de argumentos contrários às teses da pós-modernidade. Como o senhor avalia o cenário historiográfico na atualidade?

Josep Fontana: Quando se produz a viragem que levou ao predomínio da História Cultural e depois dos pós-modernismos, é evidente que há um momento no qual a crítica se assenta na denúncia de aspectos débeis, num conjunto de erros praticados pela historiografia anterior. Isto foi positivo. A historiografia anterior trabalhava com catecismos e visões esquemáticas muito ruins. Usavam-se esquemas simplificados, de um marxismo muito primário de “superestruturas” e “infraestruturas”, deixando-se de lado elementos dinâmicos. Neste sentido, a virada pós-moderna foi útil, depurou a história de práticas esquemáticas pobres. No entanto, os pós-modernos ficaram presos nas mesmas críticas que fizeram desde o início e hoje seguem publicando o mesmo que publicaram há 10 ou 15 anos. Não há nenhuma mostra do tipo de história que tinham prometido. Há um momento em que você precisa fazer com que a crítica historiográfica pare de demolir e passe a construir algo que seja uma nova produção, que reconstrua uma história social. Isto continua sendo necessário. Porque o que se faz deve ter utilidade para entender o mundo em que vivemos, ou não serve para nada; ou as pessoas devem optar por se dedicar a atividades socialmente mais úteis [risos].

Pergunta: O que o senhor considera essencial para a formação de um historiador hoje?

Josep Fontana: Eu diria que o essencial é procurar entender os problemas do mundo em que vivemos. Uma das coisas que Vives dizia aos alunos é que era importante ler jornais. Claro, todo historiador necessita, obviamente, de uma boa formação teórico-metodológica, profissional. Mas a leitura das notícias de hoje deve ser a primeira atividade de um historiador. Eu ainda faço isso todo dia. De manhã escuto rádio e vejo o noticiário da TV, depois leio os jornais locais. Ao meio-dia leio a versão eletrônica do New York Times. Ao largo disso, vou lendo revistas semanais, espanholas e estrangeiras, como The Economist, que tem a virtude de dedicar-se bastante à política internacional, bem mais que a maioria das revistas. Há muitas coisas de que necessitamos saber para entender o mundo em que vivemos. Isto para mim é uma condição essencial. O que fazemos, em última instância, deve ter uma conexão com o que as pessoas vivem. Nos últimos tempos tenho me preocupado com os resultados do trabalho dos historiadores. Na Universidade, por muito tempo, produzimos para sermos lidos por nós mesmos, por gente de nossa “tribo”. Trabalhamos intensamente em muitos estudos especializados, em teses doutorais, em foco num grupo muito restrito. Temos de nos perguntar o que devemos dizer para os que não fazem parte de nosso grupo restrito, o que dizer aos não-historiadores. Hoje estou cada vez mais convencido da necessidade que temos de influir no grande público, na educação em geral, para os estudantes que vão passar pelo ensino fundamental e médio. Existe um meio público, da mídia e do poder político estabelecido, que maneja a história através de símbolos muito precisos, monumentos, heróis, discursos e comemorações cívicas. Os historiadores precisam entrar neste debate sobre uma história e uma memória públicas; isto é muito importante para a nossa profissão e para a democracia, senão estaremos abandonando esta área para publicitários e políticos. Por exemplo, li uma tese de doutorado sobre um problema atual e muito interessante, o trabalho era sobre a redemocratização na Espanha, sobre a transição ao final do Franquismo. Na época, os partidos de esquerda, PSOE [Partido Socialista Operário Espanhol] e PCE [Partido Comunista Espanhol], fizeram uma viragem à direita para acomodar-se à situação.

Pergunta: Foi o Pacto de Moncloa?

Josep Fontana: Sim, mas não só o pacto, foi toda uma viragem política generalizada à direita. A tese mostra como foram mudando as matérias dos cursos de verão que eram oferecidos aos militantes. Antes, eram aulas de marxismo e de como derrubar o Estado burguês; depois de um ano, passaram a ser matérias que tratavam de ensinar como administrar o Estado burguês. A tese era interessante, mas tratava das questões de forma estanque, em caixotes. Ora estudava a imprensa, noutro momento, alguns documentos oficiais. Isto é problemático, porque os historiadores precisam explicar, para que as pessoas comuns entendam os processos. É necessário se explicar uma história, construir uma narração que dê sentido às coisas e que as pessoas possam entender e tenham ferramentas para ler a atualidade. É assim que podemos entender a situação atual dos partidos de esquerda na Espanha. Este isolamento da Universidade com o mundo das ruas conduz a situações em que se tenta fabricar um tipo de ciência para o consumo interno de um pequeno grupo e no máximo atinge alguns graduandos de áreas afins. Por exemplo, estudando a historia do campesinato indígena (não apenas indígenas, mas seus descendentes e mestiços também) de muitos países latino-americanos, como o México e a Colômbia, conseguimos vislumbrar um longo processo de expropriação, que começou com a conquista europeia, mas que continua na atualidade. Há um silencio sobre a continuidade deste processo. Recebemos muitos alunos latino-americanos que estão preocupados em estudar a independência de seus países, mas pergunto a muitos deles, independência para quem? Quem ganha com este tipo de liberdade? Como se estabelecem acordos entre grupos dominantes metropolitanos e de elites locais? É comum os historiadores assumirem os discursos dos Estados Nacionais e deixarem de olhar para longos, profundos e relevantes processos sociais. Há ainda muita historia feita de cima, com o olhar na cúpula da sociedade e do Estado. Vemos ainda uma supervalorização do papel de próceres, generais e presidentes. Mas isto acontece no mundo inteiro. Sempre é necessário lembrar a nossa função. Os historiadores são educadores que devem ajudar a formar pessoas a pensarem de forma autônoma e crítica, que saibam entender e agir sobre o mundo. Quando falo em educação não penso só nas situações escolares, mas numa atuação pública geral dos historiadores (nos meios de comunicação, em órgãos governamentais e outros), que também possui um potencial pedagógico importante.


Pergunta: Uma das questões que despertam curiosidade no Brasil são as relações entre a Catalunha e o Estado Espanhol. Podemos ver pela historiografia catalã que este é um tema que aflora em vários momentos, no século XIX e no XX, na Guerra Civil. É ainda uma questão colocada para os catalães, a possibilidade da independência?

Josep Fontana: O problema é que a dificuldade de convivência é considerável. Há falta de tolerância para a existência de uma cultura e uma língua próprias. Na época do Franquismo, por exemplo, havia uma proibição total ao uso da língua catalã. Chegou-se inclusive a proibir cartas particulares em catalão. Podia-se escrever uma carta em francês, isto não era proibido. As coisas chegaram a extremos desse tipo. Proibição total de publicação de livros e revistas em língua catalã; em determinado momento só foram autorizadas republicações do que se tinha editado em catalão, o que era absurdo e ilógico. Temos dificuldades agora a respeito da disputa política em torno do Estatuto da Generalitat [espécie de Constituição política da Catalunha, aprovada pelos parlamentos local e nacional, mas recusada pelo Tribunal Constitucional, corte com forte presença de magistrados do tempo do Franquismo]. Há uma negativa ao uso do termo “nação” dentro do Estatuto da Catalunha. É a coisa mais estúpida do mundo, não entender que uma nação é simplesmente um sentimento coletivo, de participação numa cultura comum. Isto não tem nada a ver com o Estado. Nação é um sentimento de desejo coletivo de pertencer a um grupo que se identifica culturalmente, e a forma natural política para a Espanha e para muitos países é um Estado plurinacional, que foi esboçado em alguns momentos do século XIX, mas que no século XX foi violentamente reprimido, com a promoção de limpezas étnicas e travas de todo tipo. Se estudarmos a situação dos povos da Europa central e do leste antes da I Guerra Mundial, verificaremos que havia uma boa convivência de povos diferentes, organizados em Estados plurinacionais. Quando se começam a produzir nações homogeneizadas pela força, principalmente no entreguerras e durante a II Guerra Mundial, ocorrem massacres, deslocamentos, perseguições estúpidas, tudo para formar artificialmente nações, e cada nação identificada com um Estado. Há uma frase de um político soviético, que depois acompanhou Ieltsin, que é muito inteligente a este respeito: há no mundo uns 200 Estados e mais de 2.700 grupos étnicos e nacionais. Então, os Estados não precisam coincidir com as nações. O Estado pode ser a casa de muitas nações, e um Estado democrático precisa cumprir este respeito à diversidade. Em teoria, uma grande autonomia da Catalunha poderá ser factível com o aumento do poder gestor da União Europeia e o consequente esvaziamento político dos Estados- membros. Mas o movimento de independência poderá crescer se aumentar a intolerância dos que querem sufocar, à força, este sentimento da nação catalã. Nas Universidades aqui você pode observar que não há nenhum conflito real a respeito da língua. Cada um trabalha e ensina usando sua língua materna, e não há conflitos. O catalão é predominante nas aulas para a graduação e o castelhano é mais usado nos cursos de pós-graduação (onde há mais latino-americanos e estrangeiros). Não querer entender essas coisas e querer impor uma uniformidade artificial é algo sem sentido. O nacionalismo exacerbado, intolerante, parte do Estado central, que deseja padronizar a partir de Castela, que só admite uma diversidade local de folclores, danças e festas populares, mas o uso das línguas locais é visto como um atentado contra a nação e, neste sentido, o nacionalismo é negativo. O discurso anticatalão é uma construção de direita, e é um discurso que rende votos em outras regiões da Espanha.


Pergunta: E sobre a atual crise que vive a Europa? Há estudiosos que afirmam que existe um esgotamento do modelo político e social europeu. Como o senhor analisa esta questão?

Josep Fontana: A atual crise econômica e financeira nasce nos Estados Unidos, é de lá que vem esta crise, não da Grécia. Existe sim uma diferença entre o modelo europeu e o norte-americano. É uma diferença que vem da própria historia social europeia. Que vem de 200 anos de luta, desde a Revolução Francesa para cá, de conquistas dos direitos individuais e sociais. Efetivamente, criou-se uma sociedade europeia muito diferenciada da norte-americana no sentido da existência de maiores direitos sociais exercidos pela população: educação pública, saúde pública, aposentadoria estatal, um papel político mais importante dos sindicatos, isto compõe um modelo que os norte-americanos, com a ideologia liberal, veem como algo negativo, como um mau exemplo. Bem, agora como a crise econômica começa a se generalizar, passam a atribuir a responsabilidade a setores que não têm nenhuma responsabilidade pela crise. O FMI e o Banco Mundial já definiram o que todos os governos, mesmo os democraticamente eleitos, precisam fazer: reduzir os serviços sociais, controlar os sindicatos, reduzir as aposentadorias e salários. Trata-se de fazer com que o modelo europeu se renda ao modelo liberal norte-americano. Isto vai sim produzir uma crise social muito maior, com consequências graves. O sistema capitalista está realmente em crise, mas buscará sua sobrevivência impondo cada vez mais sacrifícios às populações.
 

 
FONTE: Revista Mundos do Trabalho, vol. 3, n. 5, janeiro-junho de 2011, p. 307-315.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Botando ordem na casa

Che Guevara Discurso de um Revolucionário

Che Guevara e os mortos que nunca morrem

Diz Eduardo Galeano, que conheceu o Che Guevara: ele foi um homem que disse exatamente o que pensava, e que viveu exatamente o que dizia. Assim seria ele hoje. Já não há tantos homens talhados nessa madeira. Aliás, já não há tanto dessa madeira no mundo. Mas há os mortos que nunca morrem. Como o Che. E, dos mortos que nunca morrem, é preciso honrar a memória, merecer seu legado, saber entendê-lo. Não nas camisetas: nos sonhos, nas esperanças, nas certezas. Para que eles não morram jamais. O artigo é de Eric Nepomuceno.



No dia em que executaram o Che Guevara em La Higuera, uma aldeola perdida nos confins da Bolívia, Julio Cortázar – que na época trabalhava como tradutor na Unesco – estava em Argel. Naquele tempo – 9 de outubro de 1967 – as notícias demoravam muito mais que hoje para andar pelo mundo, e mais ainda para ir de La Higuera a Argel.



Vinte dias depois, já de volta a Paris, onde vivia, Cortázar escreveu uma carta ao poeta cubano Roberto Fernández Retamar contando o que sentia: “Deixei os dias passarem como num pesadelo, comprando um jornal atrás do outro, sem querer me convencer, olhando essas fotos que todos nós olhamos, lendo as mesmas palavras e entrando, uma hora atrás da outra, no mais duro conformismo... A verdade é que escrever hoje, e diante disso, me parece a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de quase dissimulação, a substituição do insubstituível. O Che morreu, e não me resta mais do que o silêncio”.

 
Mas escreveu:

 
Yo tuve un hermano
que iba por los montes
mientras yo dormía.
Lo quise a mi modo,
le tomé su voz
libre como el agua,
caminé de a ratos
cerca de su sombra.
No nos vimos nunca
pero no importaba,
mi hermano despierto
mientras yo dormía,
mi hermano mostrándome
detrás de la noche
su estrella elegida.

 
A ansiedade de Cortázar, a angústia de saber que não havia outra saída a não ser aceitar a verdade, a neblina do pesadelo do qual ninguém conseguia despertar e sair, tudo isso se repetiu, naquele 9 de outubro de 1967, por gente espalhada pelo mundo afora – gente que, como ele, nunca havia conhecido o Che.

 
Passados exatos 44 anos da tarde em que o Che foi morto, o que me vem à memória são as palavras de Cortázar, o poema que recordo em sua voz grave e definitiva: “Eu tive um irmão, não nos encontramos nunca mas não importava, meu irmão desperto enquanto eu dormia, meu irmão me mostrando atrás da noite sua estrela escolhida”.

 
No dia anterior, 8 de outubro de 1967, um Ernesto Guevara magro, maltratado, isolado do mundo e da vida, com uma perna ferida por uma bala e carregando uma arma travada, se rendeu. Parecia um mendigo, um peregrino dos próprios sonhos, estava magro, a magreza estranha dos místicos e dos desamparados. Foi levado para um casebre onde funcionava a escola rural de La Higuera. No dia seguinte foi interrogado. Primeiro, por um tenente boliviano chamado Andrés Selich. Depois, por um coronel, também boliviano, chamado Joaquín Zenteno Anaya, e por um cubano chamado Félix Rodríguez, agente da CIA. Veio, então, a ordem final: o general René Barrientos, presidente da Bolívia, mandou liquidar o assunto.

 
O escolhido para executá-la foi um soldadinho chamado Mario Terán. A instrução final: não atirar no rosto. Só do pescoço para baixo. Primeiro o soldadinho acertou braços e pernas do Che. Depois, o peito. O último dos onze disparos foi dado à uma e dez da tarde daquela segunda-feira, 9 de outubro de 1967. Quatro meses e 16 dias antes, o Che havia cumprido 39 anos de idade. Sua última imagem: o corpo magro, estendido no tanque de lavar roupa de um casebre miserável de uma aldeola miserável de um país miserável da América Latina. Seu rosto definitivo, seus olhos abertos – olhando para um futuro que ele sonhou, mas não veria, olhando para cada um de nós. Seus olhos abertos para sempre.

 
Quarenta e quatro anos depois daquela segunda-feira, o homem novo sonhado por ele não aconteceu. Suas idéias teriam cabida no mundo de hoje? Como ele veria o que aconteceu e acontece? O que teria sido dele ao saber que se transformou numa espécie de ícone de sonhos românticos que perderam seu lugar? Haveria lugar para o Che Guevara nesse mundo que parece se esfarelar, mas ainda assim persiste, insiste em acreditar num futuro de justiça e harmonia? Um lugar para ele nesses tempos de avareza, cobiça, egoísmo?

 
Deveria haver. Deve haver. O Che virou um ícone banalizado, um rosto belo estampado em camisetas. Mas ele saberia, ele sabe, que foi muito mais do que isso. O que havia, o que há por trás desse rosto? Essa, a pergunta que prevalece.

 
O Che viveu uma vida breve. Passaram-se mais anos da sua morte do que os anos da vida que coube a ele viver. E a pergunta continua, persistente e teimosa como ele soube ser. Como seria o Che Guevara nesses nossos dias de espanto? Pois teria sabido mudar algumas idéias sem mudar um milímetro de seus princípios.

 
Diz Eduardo Galeano, que conheceu o Che Guevara: ele foi um homem que disse exatamente o que pensava, e que viveu exatamente o que dizia.

 
Assim seria ele hoje.

 
Já não há tantos homens talhados nessa madeira. Aliás, já não há tanto dessa madeira no mundo. Mas há os mortos que nunca morrem. Como o Che.

 
E, dos mortos que nunca morrem, é preciso honrar a memória, merecer seu legado, saber entendê-lo. Não nas camisetas: nos sonhos, nas esperanças, nas certezas. Para que eles não morram jamais. Como o Che.
 
 
FONTE: Carta Maior
 

Charge: Reação cidadã - A ocupação de Wall Street

sábado, 8 de outubro de 2011

“África-Brasil, Ancestralidade e Expressões Contemporâneas”

Mostra valoriza a arte negra brasileira e homenageia a memória de Abdias Nascimento




O Ipeafro – Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros – realiza no Centro Cultural Justiça Federal, Rio de Janeiro, a exposição “África-Brasil, Ancestralidade e Expressões Contemporâneas”.

 
A mostra apresenta uma abordagem áudio visual das civilizações africanas e sua história, bem como da criatividade plástica que expressa o saber, a tradição e a simbologia epistemológica dos povos africanos na sua expressão plástica brasileira atual. O legado africano se expressa em duas vertentes: a cultural-artística e a dimensão política de defesa dos direitos humanos dos povos negros escravizados e discriminados.

 
A exposição, que integra uma ação contínua no campo da educação promovida pelo Ipeafro, homenageará a memória do recém-falecido pintor, poeta, escritor e professor universitário Abdias Nascimento, que também foi senador, deputado federal e duas vezes secretário do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Apresentará o trabalho das instituições que ele criou desde o Teatro Experimental do Negro (1944) e o Museu de Arte Negra (1950) até o Ipeafro (1981-presente).

 

Baseada no conteúdo do acervo Abdias Nascimento / Ipeafro, a mostra reúne pinturas de Abdias e de quatro artistas convidados, bem como peças criadas pelo Ipeafro como a Linha do Tempo dos Povos Africanos onde está ilustrada como os africanos produziram cultura e conhecimento durante milênios em liberdade e soberania.



Os artistas convidados que integram a mostra são José Heitor da Silva (escultura em madeira), Sebastião Januário (pintura), Luiz Carlos Gá (design gráfico) e Maurício Pestana (cartuns e cartazes). Iléa Ferraz comparece com o prêmio que ela criou e que foi outorgado a Abdias Nascimento em 2007.

 
Serviço:

Exposição África-Brasil, ancestralidade e expressões contemporâneas.
Homenagem a Abdias Nascimento
Artistas convidados: José Heitor da Silva (escultura em madeira), Sebastião Januário (pintura), Luiz Carlos Gá (design gráfico) e Maurício Pestana (cartuns e cartazes).

 
Centro Cultural Justiça Federal
Avenida Rio Branco, 241 – Centro – Rio de Janeiro. Tel. 21-3261-2550

Curadoria: Elisa Larkin Nascimento. Design museográfico: Afonnso Drumond
Realização: Ipeafro
Fundo Nacional de Cultura
Ministério da Cultura
Governo Federal

Visitação à exposição: 8 de outubro a 4 de dezembro de 2011. Aberta ao público de de terça a domingo, das 12h às 19h. Entrada franca


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Enem joga água no moinho da mercantilização

"O ENEM não é uma ferramenta adequada para a avaliação das escolas, dos estudantes e dos professores e, tampouco, dos sistemas."


Por Roberto Leher*


No mesmo contexto em que professores e demais trabalhadores da educação básica protagonizam um dos mais generalizados ciclo de greves da história recente do país, em prol da reivindicação do piso salarial nacional de irrisórios R$ 1.187,00, o MEC divulgou os resultados do ENEM. A repercussão nas corporações da mídia foi bombástica: o desempenho dos estudantes das escolas privadas foi muito superior ao das públicas. Entre as mil melhores escolas do país, apenas 7,4% são públicas, conforme o noticiário. O corolário de tal aferição, apresentada como rigorosa e cientifica, é que as escolas privadas são muito superiores às escolas públicas.



Do ponto de vista das estratégias dos fundos de investimentos que vêm entrando no setor dos negócios educacionais no ensino médio e do Movimento Compromisso Todos pela Educação, interessado em assumir, de modo mais orgânico, o controle das escolas mantidas às expensas do Estado, por meio das Escolas Charters, o anúncio do MEC, tal como apresentado, certamente foi comemorado efusivamente.

 

Entretanto, o ranking possibilitado pelos indicadores do INEP dificilmente pode ser compreendido como resultante de procedimentos científicos, afinal, a comparação é despropositada em diversos sentidos. Dos 8,4 milhões de matrículas no ensino médio, apenas 11,8% são privadas (INEP, 2010). Isso quer dizer que a comparação se dá, grosso modo, entre a massa mais pobre da população jovem e o andar de cima da pirâmide social. Mesmo entre as escolas públicas tidas como de excelência, muitas delas já adotam o sorteio como critério de ingresso, favorecendo a participação popular. As escolas privadas ditas de excelência, ao contrário, utilizam mecanismos de seleção que, previamente, discriminam os de melhor escolarização.

 

Para piorar, o uso de provas padronizadas como critério de avaliação oculta que, nas escolas públicas, como os professores são hiperexplorados (em estados mais ricos do país, como Rio de Janeiro e Minas Gerais, os docentes graduados fizeram longas greves para saírem, respectivamente, do patamar de R$ 720,00 e R$ 550,00), a rotatividade é enorme. Milhares de professores pedem exoneração todos os anos no país. Em muitas escolas, os estudantes cursam o período noturno (34,4% das matrículas, INEP, 2010) e, a exemplo de outras tantas escolas diurnas, raramente logram mais do que 3 horas e 30 minutos de aula/dia. Laboratórios, biblioteca, espaços para atividades artísticas e culturais, horário complementar para estudos, raramente existe essa infraestrutura básica nas escolas públicas estaduais. Ademais, em virtude da falta de docentes, é usual que as turmas que possuem aulas de matemática não têm aulas física; as que têm física não garantem aulas de química, e assim sucessivamente. Nada disso é avaliado. O discurso é que a avaliação do “produto”, por si só, modifica (misteriosamente) essa áspera realidade. Claro que, sub-repticiamente, um pouco de repressão pode ajudar, como, por exemplo, punições salariais para os docentes das escolas de baixa pontuação.

 
ENEM tornou-se peça publicitária


Como os testes padronizados foram lastimavelmente incorporados por várias universidades públicas, muitas escolas privadas utilizam os resultados do exame, agora disponibilizados por unidade escolar pelo INEP, como peça publicitária. Por isso, tais escolas selecionam, previamente, os estudantes que vão fazer o ENEM, inclusive promovendo treinamento, o que obviamente distorce os resultados.



Também as virtudes democráticas do exame são questionáveis. Como admite o ministro Haddad, o exame pretende “enxugar” o currículo, propósito que, obviamente, terá repercussões no ensino médio público: a extraordinária simplificação dos conteúdos interessa, de fato, à classe trabalhadora? O que o MEC entende por simplificação curricular? Em que fóruns tal objetivo vem sendo discutido com rigor? Como observou o professor Carlos Roberto Jamil Cury em recente debate, o fato é que, na prática, o ENEM (os seus descritores, os tipos de questões) assume o caráter de elemento unificador do currículo da educação básica nacional. E as corporações que atuam na venda dos kits pedagógicos rapidamente aprenderam a manejar essa avaliação simplificada, logrando “bons resultados” educacionais que passam a ser vendidos massivamente nas escolas públicas.



Outro aspecto a considerar é que a sua abrangência nacional favorece a mobilidade estudantil dos que possuem melhores meios econômicos. Assim, por exemplo, grande parte dos estudantes de medicina da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) não é do estado. Os estudantes do topo da pirâmide social podem apresentar suas pontuações em qualquer parte do país. Caberia investigar se, a médio prazo, não teremos maior concentração de renda nos cursos de maior prestigio e, também, de jovens provenientes das regiões de maior concentração da renda.



Ferramenta inadequada


O ENEM não é uma ferramenta adequada para a avaliação das escolas, dos estudantes e dos professores e, tampouco, dos sistemas. A aferição é descontextualizada e contribui para o esvaziamento (simplificação) do conhecimento trabalhado na escola. O seu mérito é privatista. Ao empobrecer o ensino médio, reduz o custo do serviço educacional vendido pelas privadas e pelas corporações que vendem kits pedagógicos e aperfeiçoa a captação de estudantes para as escolas de ensino médio e superior privadas. Beneficia os estudantes de maior renda nos cursos mais concorridos das instituições públicas, contribuindo para a seletividade social. Para favorecer a expansão privada no ensino médio, desqualifica as instituições públicas, ocultando os determinantes dos baixos resultados dos seus estudantes e, finalmente, desobriga o Estado de promover políticas que de fato assegurem a escola pública de elevada qualidade para todos. É como se todo problema educacional fosse de natureza gerencial a ser resolvido por meio de prêmios e castigos.



Finalmente, o ENEM não altera a existência do funil que separa a juventude proveniente dos segmentos populares da universidade pública. Por isso, podemos concluir que em uma sociedade comprometida com a garantia de sistema educacional público, gratuito, unitário, laico e universal, exames padronizados como o ENEM seriam impensáveis. Mas em uma sociedade cindida socialmente e em que o setor de venda de serviços educacionais é parte do bloco de poder, o ENEM é uma preciosa prebenda para as corporações.

 

*Professor da Faculdade de Educação da UFRJ


1 “O fim do vestibular não é o fim do mérito’’. Entrevista com ministro Haddad, OESP, JC e-mail 4317, de 08 de Agosto de 2011.


2 O CNE: organização e conflito, C.R. J. Cury e L. A. Cunha, promovido pelo Grupo de Estudos dos Sistemas Educacionais (GESED) e Observatório da Laicidade de Estado (OLE), Faculdade de Educação da UFRJ, 20/9/11.

 
FONTE: Jornal da Adufrj - 722 - 26/09/2011 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Carta a um jovem jornalista “polêmico”



Por João Gabriel Vieira Bordin

 
O monopólio da grande mídia, sobretudo da mídia televisiva, sobre o conteúdo e a forma da informação a que a maioria da população tem acesso, é um dos pilares fundamentais da dominação de classes no contexto da sociedade capitalista contemporânea. Trata-se do meio principal através do qual os valores e as concepções ideológicas necessárias à legitimação de condições sociais extremamente desiguais são produzidos e reproduzidos.

 
Dentro desse quadro, a literatura também sofre a influência de elementos que são ou deveriam ser estranhos à atividade literária em si. Os best-sellers consumidos em massa constituem um exemplo emblemático da literatura tornada mercadoria e, enquanto tal, produzida com o único objetivo de render lucro.

Guia politicamente incorreto da História do Brasil, do “jornalista” Leandro Narloch, integra essa categoria. Vendida com a idéia de que se trata de uma obra crítica a respeito da história do Brasil, trata-se, na verdade, de uma peça ímpar de doutrinação ideológica. É o velho conservadorismo, travestido de ciência. Se não fosse o estado de embrutecimento intelectual em que a mídia conservadora nos deixou, essa obra seria motivo de pilhéria. Mas, desgraçadamente, ela encontrou larga aceitação entre a “intelectualidade” brasileira. É necessário, portanto, que olhemos mais a fundo e identifiquemos as motivações por trás da obra.

 
Após pôr termo à leitura do livro, não resisti em escrever algumas linhas com relação às teses nele expostas. Confesso que a tom provocativo produziu em mim tal necessidade. Seja como for, o próprio conteúdo da argumentação em si mesmo é já uma grande provocação; coloca o leitor numa posição de alteridade com relação aos seus próprios pressupostos e – por que não? – pré-conceitos, instando-o a se afastar das suas crenças mais profundas e, com isto, repensá-las à luz da análise de um quadro histórico, social e cultural, bastante mais complexo do que aqueles fatos reificados e simplificados do lugar-comum das crenças preconceituosas, enraizadas por costume e tradição. Nesse tocante, portanto, faço ao Narloch um elogio. O mérito da obra resume-se, essencialmente, nessa vontade crítica (será sincera?), cujo objetivo deve ser desmistificar os fatos históricos como são interpretados pela leitura do senso-comum, esta perspectiva que repousa sobre a tradição. O problema é que o autor não cumpre com seus propósitos, como uma leitura crítica deixa manifesto já prima facie.

 
O processo histórico deve ser compreendido respeitando-se sua complexidade intrínseca, seus movimentos contraditórios e antagonistas. Ao mesmo tempo, deve-se preservar o discurso científico das concepções banais e reducionistas, cujos efeitos podemos ver numa leitura da história que a compreende em termos de relações causa-efeito rígidas e unilaterais, ou de maniqueísmos que opõem uma luta do bem contra o mal etc. Em suma, todo “bom-mocismo”, todo enaltecimento aos heróis, deve ser expurgado de uma análise científica e conseqüente da história. Não é necessário recordarmos que essas criações míticas servem a propósitos e interesses concretos, seja de construir uma identidade nacional, seja de preservar uma tradição ou para legitimar certas condições sócio-históricas contemporâneas. Tais criações são sempre anacronismos, isto é, são frutos de um olhar ao passado através dos olhos do presente, a fim de se encontrar no passado as raízes daquilo que se quer justificar e legitimar no presente.

 
E é só. O livro possui esse mérito tão-somente, mais nada. O resto é um ingente desserviço (não para a classe cujos valores o autor defende) para o intelecto e para o povo. A “obra” não passa de uma coletânea de lugares-comuns e ideologias apologéticas do capitalismo e da ética burguesa, de seus valores e das suas supostas verdades. Daí porque eu inevitavelmente não entendi os objetivos que o autor diz colocar a si mesmo. Ele diz que intenta desconstruir o mito histórico corrente, fundado em certos interesses e valores, mas, precisamente ao contrário, não faz mais do que reiterá-los. O capítulo sobre os comunistas deixa isso escandalosamente patente (é lá que Narloch realmente mostra as garras). Ao invés de desconstruir crenças infundadas o autor as aprofunda, devido, em primeiro lugar, às suas convicções ideológicas, e em segundo porque ele acredita que a história oficial foi escrita, quando não por marxistas, por ideólogos das lutas por igualdade racial, social etc. Assim, Narloch não elimina da história os heróis e os anacronismos de uma análise que procura atribuir valores contemporâneos aos personagens e fatos do passado, antes erige novos heróis – e, conseqüentemente, novos vilões.

Com Narloch, somos levados a descobrir que os ingleses foram os grandes mocinhos do século XIX, interessados em transformar o Brasil (e o resto do mundo) em novas nações soberanas e independentes do seu capital e da sua política, e que, do mesmo modo que os ingleses no século XIX, os norte-americanos foram os mocinhos do século XX, lutando pela democracia e pela livre-iniciativa contra a influência sediciosa dos comunistas totalitários. Por outro lado, os grandes vilões teriam sido, junto com os comunistas na política, os... professores de história das décadas de 1960 e 70, ideólogos marxistas-comunistas-leninistas. Pelo que se pode depreender daí, o autor não teve intenção alguma de desmistificar e rever a história oficial, mas simplesmente de reescrevê-la a partir da sua própria perspectiva ideológica. E o mais intrigante desta empresa é que ele parte do pressuposto de que a história oficial é ideologia marxista e não pelo contrário, ideologia burguesa. Se a ideologia burguesa hoje pretende encobrir suas mazelas, seu passado violento e criminoso pretende, portanto, conferir dignidade às minorias excluídas e às classes exploradas por ela, isto não é devido a um real arrependimento, ou a uma visão romântica, mas devido ao fato de que há grande interesse em se manter como dona da moral e da verdade, encobrindo ou legitimando sua história passada através da voz das suas vítimas.

Mas é no capítulo dedicado aos comunistas que Narloch se trai, deixando evidentes as motivações ideológicas que o levaram a escrever seu livro. Ele não só reproduz o discurso apologético burguês de que o comunismo é necessariamente mau (mau com “u” mesmo), vide tantas revoluções defraudadas ou degringoladas ao longo século XX, e o capitalismo é necessariamente bom, como também trata a idéia de revolução social (ou seja, de transformação de uma ordem social dada em outra) como uma utopia nociva para o desenvolvimento “pacífico” da sociedade (capitalista). O comunismo é, além disso, anacronicamente comparado ao messianismo religioso – aliás, argumento semeado invariavelmente pela ideologia corrente, e que está na ponta da língua de qualquer defensor da sociedade capitalista. É evidente, para qualquer estudioso mais capacitado de história e de ciências sociais, que esses pontos de vista não estão fundados de modo algum em argumentos científicos, mas na apologia vulgar.


 
Um estudioso sério, ao contrário de um retórico agitador e panegerista da ideologia burguesa (como é o caso de Narloch), dificilmente seria levado a discorrer sobre aquilo que não é de seu conhecimento. Nesse sentido, Narloch não deveria ter se atrevido a falar do marxismo, já que é notório que não sabe nada da matéria em questão. É simplesmente absurdo e inconseqüente o modo como ele traça uma linha direta e reta entre a teoria materialista da história proposta por Marx e os rumos tomados pela antiga URSS durante o período stalinista. Percebe-se rapidamente que o autor desconhece completamente a história do marxismo, assim como das suas conseqüências políticas e sociais históricas (nem sempre coerentes), limitando-se a propalar os chavões recozidos da apologética burguesa. Quando ele fala de Cuba, por exemplo, passa por alto (consciente ou inconscientemente?) o fato de que o país, antes da revolução, havia sido praticamente um entreposto colonial norte-americano desde sua libertação da metrópole espanhola, mantido sobre o tacão da política imperialista que assumia a América Latina como um seu quintal, e que Fulgêncio Batista era um ditador corrupto que transformou a ilha num bordel para magnatas ianques.


 
E se ele continuasse a argumentar, não seria temeridade aventar que, para Narloch, a miséria atual de Cuba é culpa do socialismo e da não-liberdade à “criatividade” da iniciativa privada, e não do embargo criminoso mantido à ilha, cujo isolamento econômico condenou o país a permanecer atrasado como havia sido desde o período colonial.

 
Impressionante mesmo é a maneira absurda pela qual ele justifica a tortura dos militares brasileiros: eles torturaram porque eram inexperientes na luta contra-guerrilheira. Enquanto os comunistas brasileiros eram ineptos, boçais, estúpidos mesmo, protagonistas de uma comédia (como o trapalhão Prestes), os militares eram apenas inexperientes em matéria de contra-insurgência, de sorte que não lhes restou outra opção do que caçar os comunistas mediante delações e tortura (ou seja, tiverem que se rebaixar ao nível imoral dos “terroristas”), posto que eram incapazes de vencer no corpo-a-corpo. O recrudescimento do regime, outrossim, foi responsabilidade dos guerrilheiros, cujas ações comprometiam a “ordem” do país, de modo que os militares no poder não tiverem outra opção do que baixar o AI-5.

 
Enfim, é desnecessário continuar a argumentar. À exceção de algumas passagens interessantes, nas quais Narloch apresenta pesquisas acadêmicas inovadoras (o que, portanto, não é mérito dele), seu livro não passa de um festival de teses descabidas, asserções infundadas e defesas apaixonadas da ideologia burguesa, do livre mercado, do imperialismo dos países desenvolvidos, da inferioridade dos povos ameríndios, da maldade e da incivilidade congênita dos povos explorados. É evidente que não existem vítimas (num sentido simplista) na história, não existem nem heróis, nem vilões. Ninguém pode negar o fato de que, por exemplo, a guerra era parte da estrutura social base da sociedade indígena, assim como o era a escravização para os negros africanos. Mas fechar os olhos para o fato de que a influência externa dos europeus, que entravam à época na fase histórica do capitalismo, desestruturou essas culturas milenares; ignorar que onde penetrava o dinheiro diluíam-se todos os costumes e valores culturais dos povos pré-capitalistas, destruindo todas as suas relações sociais; é não apenas compactuar com uma visão pouco justa da história, como também agir de má-fé. Não haveria de ser de outra maneira, isto é, essas culturas necessariamente seriam apropriadas e subsumiriam sob a nova organização social destina a conquistar o mundo, o capitalismo. Entretanto, não avaliar as conseqüências concretas da modernidade para esses povos, é pretexto para caracterizar todos os homens como maus, sejam eles oprimidos ou opressores, legitimando assim a guerra de todos contra todos. Para esse tipo de pensamento, se sempre haverá opressão e sofrimento na história, é razoável que sejamos nós os que oprimem e não os oprimidos.

Em suma, Narloch age de má-fé. Não há absolutamente nada de científico no seu livro. Pelo contrário, tudo o que encontramos nele é um festival de preconceitos típicos de uma elite tão boçal quanto estúpida como o é a elite brasileira. Não é à toa que o livro teve grande aceitação entre os veículos midiáticos empresariais, condição necessária para se tornar um best-seller. Narloch não é um jornalista, mas, como diria Marx, um sicofanta da ordem capitalista, isto é, um mero defensor desta ordem, de onde extrai as migalhas que os grandes burgueses lhe dão. Sua visão pouco correta e altamente deturpada da história, pretendendo-se apoiar em estudos científicos, mas que na verdade põe a nu a verdadeira ideologia burguesa, de fato não poderia ser diferente: um jornalista como Narloch, que trabalhou para a Veja, certamente não pode ter uma visão de mundo distinta da linha editorial dessa execrável revista. Afinal, existe um veículo de comunicação mais patologicamente ideológico do que a Veja? Qualquer um que tenha trabalhado nela não pode ser um historiador ou jornalista sério, mas deve necessariamente resumir-se a um defensor barato do pensamento da direita conservadora e odiosa desse país.

 
João Gabriel Vieira Bordin é cientista social.

 
 

Um homem feito de ferro e de flor: lançamento das Memórias de Gregório Bezerra



O Comitê Paraibano de Anistia e Memória organiza na próxima sexta-feira, em João Pessoa, evento de lançamento das Memórias de Gregório Bezerra (Boitempo, 2011). Durante o encontro, será prestada homenagem a Raimundo Jinkings, fundador da primeira editora Boitempo e pai de Ivana Jinkings, editora-chefe da Boitempo Editorial. O evento é gratuito e não há necessidade de inscrição. O livro será vendido com desconto.
17h
Casarão 34 (Rua Visconde Pelotas, 34
Centro
João Pessoa)
Tel. (83) 3218-9708

 

domingo, 2 de outubro de 2011

Uma luta que vem de longe: a história da remuneração dos professores de ensino secundário

CLIQUE NO TÍTULO ABAIXO PARA LER O ARTIGO NA ÍNTEGRA


RELAÇÕES TRABALHISTAS E A REMUNERAÇÃO DO MAGISTÉRIO (1931-1945)

Por Amália Dias - Universidade Federal Fluminense/CAPES

RESUMO:
Examinamos a inserção do magistério particular do ensino secundário na categoria de "trabalhador", no contexto de reestruturação das relações trabalhistas e das funções atribuídas ao ensino secundário no país nas décadas de 1930 e 1940, o que implicou em mudanças importantes no estatuto profissional da categoria. Investigamos a elaboração de critérios para a definição da remuneração do magistério de ensino secundário particular. Sucessivas comissões, anteprojetos, pareceres, portarias e decretos focalizaram esta questão. A intervenção do Estado nas relações entre capital e trabalho caracterizou fortemente este processo, participando nas negociações e conflitos entre patrões e empregados.


Publicado em:
REVISTA HISTEDBR ON-LINE, Número 42, junho 2011

Liberdade de expressão? Só contra os inimigos do american way of life

Fidel, nos anos 1980, previu o que aconteceria a quem ousasse levantar-se contra o american way of life

 
Certa vez ao ser entrevistado pela revista "Playboy americana", Fidel Castro respondeu ao repórter que lhe indagava se ele podia ir ao centro de Havana e começar um protesto contra seu governo e que não seria detido por isso, como prova de que havia democracia em Cuba, lá pelos anos 1980: Será que eu posso ir as ruas de Nova Iorque também protestar contra o seu governo sem ser detido pela polícia?


 
Cerca de trinta anos depois, escancara-se para o mundo inteiro o tipo de democracia que o governo americano preza: liberdade de expressão e protesto apenas contra os inimigos dos Estados Unidos, se os protestos atingem os interesses norte americanos e do aliado Israel, toda repressão e pouca divulgação pela imprensa ocidental.


 
Quem ainda crê no rótulo, auto concedido, de "defensores da liberdade" para a América?


Os ocupantes de Wall Street protestam contra o sistema financeiro internacional e pedem justiça social, 700 cidadãos dos Estados Unidos foram presos por bradarem contra os mais ricos e as injustiças que tornam ainda mais duras as vidas dos mais pobres: "Este não é um protesto contra a polícia de Nova York. É um protesto de 99% da população contra o poder desproporcional de 1% que controla 50% da riqueza do país."

 
Fidel Castro estava certo todo este tempo e alguns lhe ridicularizaram...


A BBC Brasil publicou hoje:

 
Polícia prende 700 pessoas em protesto contra bancos em Nova York



Mais de 700 pessoas foram presas em Nova York quando protestavam contra o que chamam de "ganância do sistema financeiro" no sábado.



Os manifestantes do protesto Occupy Wall Street (algo como "Ocupem Wall Street", o coração financeiro nova-iorquino) cruzavam a ponte do Brooklin quando foram detidos pela polícia, a maioria por causar tumulto e atrapalhar o trânsito.



A marcha não tinha autorização da polícia, mas um porta-voz do movimento disse à BBC que "desde que caminhemos pela calçada e de maneira ordeira, é completamente legal".



Entretanto, a polícia afirmou que muitos não obedeceram as ordens de permanecer na calçada, e foram presos.



Neste domingo, as autoridades nova-iorquinas informaram que a maioria dos 700 detidos já havia sido liberada. Todos devem ser liberados após serem identificados.



Indignação

A organização dos protestos diz que está "defendendo 99% da população americana contra o 1% mais rico". Ativistas do movimento estão acampados próximo a Wall Street há duas semanas.



Desde meados de setembro, os líderes do Occupy Wall Street – uma coalizão de agremiações menores – vinham conclamando seus seguidores a juntar 20 mil pessoas, "inundar a baixa Manhattan" (região onde fica Wall Street) e permanecer acampados "durante meses".



"Não é justo que nosso governo ajude as grandes corporações e não as pessoas", disse à BBC um dos manifestantes, Henry-James Ferry.



"Não somos anarquistas. Não somos vândalos. Sou um homem de 48 anos de idade."

Ele contou que soube do protesto quando, um dia, deparou-se com uma manifestação do movimento. Indignado com a situação, resolveu "voltar para protestar todo dia".

 
Centenas de manifestantes permanecem ocupando a região de Zuccotti Park, localizada não muito longe de Wall Street.

 
Em apoio, uma série de pequenos protestos também foram realizados em outras cidades americanas.

 
No entanto, em duas semanas de manifestações, a relação com a polícia tem se mostrado difícil.

 
No dia 25 de setembro, 80 pessoas do movimento foram presas, também por desordem e por atrapalhar o trânsito. Um manifestante foi indiciado por agressão a um policial.

 
Na sexta-feira, cerca de 2 mil pessoas do movimento já haviam se dirigido em passeata para protestar contra a repressão policial aos protestos.

 
"Não somos anarquistas. Não somos vândalos. Sou um homem de 48 anos de idade", queixou-se um dos manifestantes, Robert Cammiso, para a BBC.

 
"Este não é um protesto contra a polícia de Nova York. É um protesto de 99% da população contra o poder desproporcional de 1% que controla 50% da riqueza do país."


Pedras no caminho

sábado, 1 de outubro de 2011

Rio das Ostras: mais um assassinato político na sua história?


Coincidentemente, após publicar o artigo abaixo no site do PSOL Serramar, o jornalista Benoni Alencar foi encontrado morto, em sua casa no Palmital, no último dia 27 de setembro. De acordo com o laudo do IML de Macaé, o corpo apresentava sinais de estrangulamento. A polícia investiga a possibilidade de latrocínio, visto que o dinheiro e o computador do jornalista desapareceram. Veja o noticiário sobre o caso: Jornalista Benoni Alencar é enterrado em Palmital; polícia suspeita de latrocínio


Leia a seguir o artigo publicado por Benoni Alencar no último dia 24 de setembro de 2011 no site do PSOL Serramar


Verde e laranja, cores de um mesmo borrão


Por BENONI ALENCAR

Um grupo de participantes do “Encontro Fé e Política”, realizado em Riodas Ostras, em 20 de agosto, no salão paroquial, acompanhou o palestrante Chico Alencar, deputado federal pelo PSOL-RJ, para uma conversa sobre o partido, que se realizaria no pólo riostrense da UFF (Puro), numa iniciativa do Núcleo Serramar, que organiza o próprio PSOL no município. Ali, nos comentários sobre a situação política em Rio das Ostras, ouvi pela primeira vez a expressão “verdes e laranjas”, para designar a dicotomia eleitoral existente na cidade. Os verdes, personificados pelo ex-prefeito e, hoje, deputado Alcebíades Sabino [PSC]; os laranjas, pelo atual prefeito Carlos Augusto Baltazar {PMDB]. Um participante resumiu o sentimento geral com esta frase: “As duas cores, só na aparência, representam políticas distintas. Ambas são faces de uma mesma moeda – a moeda dos grupos econômicos que estão por trás deles e que financiam suas campanhas eleitorais”.


Calado encontrava-me, calado fiquei — queria mais ouvir do que falar. Mas, em casa, arrependi-me dessa posição, e resolvi escrever sobre o que sei dessa curiosa situação de Rio das Ostras. E, de cara, dou razão aos participantes do encontro com Chico Alencar — Sabino e Carlos Augusto são farinha do mesmo saco. Pois se apoiam nos mesmos grupos econômicos, e governam com os mesmos métodos e o mesmo modelo. Mas vamos aos fatos. Carlos Augusto só pôde ser alçado à categoria de grande cacique municipal porque teve o apoio de Sabino para ser seu sucessor, em 2004. O chefe do PMDB, na eleição anterior, em que Sabino obteve o segundo mandato, pretendeu, sim, disputar a Prefeitura. Mas, como me disse numa conversa em que eu me achava no papel de repórter da “Folha dos Municípios”, não iria se aventurar por causa do “custo muito alto da campanha”. Assim,só viria a se candidatar quatro anos depois, quando selou a paz com Sabino, unificando as fontes financiadoras da política de Rio das Ostras. Nas eleição seguinte, dividiram-se – dividindo também as fontes financiadoras. Carlos Augusto levou a melhor.



O próprio Sabino – e é isso que quero contar – só chegaria à condição de chefão da política riostrense por causa de uma briga entre o primeiro prefeiro municipal, Cláudio Ribeiro, e os financiadores da política local. O hoje deputado contou-me a longa história, na presença de um amigo dele de infância, o médico Cláudio Alencar do Rego Barros. Vou procurar resumi-la. Cláudio Ribeiro, comerciante do ramo de marmoraria e vereador à Câmara de Casimiro de Abreu, disputou a eleição do município recém-emancipado — tendo como adversários o também vereador Gélson Apicelo, segundo mais votado, e o então bancário magricela Alcebíades Sabino, terceiro.



Na metade do mandado, quando se achava com a popularidade mais baixa que rabo de cobra, Cláudio Ribeiro chamou Sabino ao seu gabinete de prefeito, e lhe disse que iria iniciar uma nova etapa do mandado, necessitando do seu apoio. Revela, então, que rompera com os que haviam financiado sua eleição, dirigindo-lhes estas palavras: “Vocês já roubaram o suficiente; agora é minha hora de atender meus compromissos com os eleitores, governando para a cidade”. Ou seja, Cláudio colocava ponto final na roubalheira que permitira até ali, e agora queria recuperar o respeito do povo — que o tratava carinhosamente de “Coronel”, retribuição a um tratamento que Cláudio, homem comunicativo e cheio de energia, contando pouco mais de 40 anos, dispensava a todos que se acercavam dele. Olhou duramente os olhos de Sabino, e segredou-lhe, em voz reveladora de medo. “Esses homens são capazes de tudo, até de me matar. Por isso escolhi você para me apoiar, com seu grupo”.



Assassinado menos de dois meses depois, Cláúdio Ribeiro expôs o seguinte plano. Desembaraçado dos sugadores do magro Orçamento municipal (não havia ainda o pote de ouro dos royalties do petróleo), recuperaria a popularidade, e apoiaria Sabino na sucessão (também não havia ainda a reeleição). Sabino, em contrapartida, deveria dar-lhe suporte na guerra “política” que eclodiria na cidade a partir daquele rompimento . Cético quando à possibilidade de Cláudio dar a volta por cima na sua impopularidade, Sabino prometeu dar resposta depois e pôs uma pedra sobre o assunto. Agoniado com a enrascada em que estava metido, Cláudio Ribeiro decidiu pôr o carro adiante dos bois, fazendo publicar nos jornais municipais, que controlova por meio das subvenções que dispensava à imprensa, a seguinte manchete: “Sabino é o candidato de Cláudio à sua sucessão”.



Sabino tremeu quando viu impressa aquela ameaça, no alto da página. Lastimou com seus botões a leviandade de Cláúdio, que não esperara sua resposta – que seria negativa. Coronel, àquela altura da sua infeliz administração, não tinha prestígio para eleger sequer um vereadorzinho pescado em sobra de legenda. Imagine-se fazer o sucessor. Enquanto o magricela bancário digeria fel com que Cláudio o “mimava”, remoendo formas de minimizar os estragos que aquilo causava aos seus planos eleitorais, explode a bomba. Dois pistoleiros de aluguel, vindos do Rio, contratados pelos que Cláudio frustrara com sua decisão de acabar com a roubalheira, mataram-no com vários tiros nas costas, no seu sítio em Vila Verde, em pleno meio dia .



Eu ainda morava em Niterói, e havia passado em Rio das Ostras um dos adoráveis fins-de semana que costumava desfrutar aqui, no verão, quando me deparei com a nota do assassinato de Cláudio Ribeiro na minha mesa de redator do “Jornal do Commercio”, do Rio, cabendo-me editar a notícia. Fi-lo com angústia. Em aqui voltando, semanas depois, soube do resto da história. O povo compreendeu a tragédia de seu querido Coronel, perdoou-o pelos anos de mau governo, e fez do enterro dele a maior manifestação popular da história de Rio das Ostras — até não superada. A bem dizer ninguém ficou em casa – todos foram para a rua em lágrimas, levar o esquife do prefeito ao cemitério. Sabino seria confirmado, pela viúva de Cláudio, como o escolhido dele para a sucessão, e logrou eleger-se, derrotando o então favorito Gélson Apicelo, do PDT. Detalhe: a vice de Coronel, que completaria seu mandato, era também do PDT.



A história dessa tragédia, que relembro ainda com emoção, mostra como a política de Rio das Ostras é governada pelos financiadores de campanha, que recuperam o capital investido, multiplicado várias vezes, com os contratos que celebram com a Prefeitura durante o mandato do pupilo eleito. Contratos — ou votos para deputado na eleição seguinte, como é o caso do deputado federal Alexandre Santos, do PSDB, apoiado por Sabino desde o primeiro mandato; apoio mantido com Carlos Augusto.



E este é o motivo, a meu ver, pelo qual nunca a política em Rio das Ostras se renova. Numa eleição sobem os verdes; na outra, os laranjas. Por detrás, sem visibilidade clara para os eleitores, os que nunca perdem eleição — os financiadores doublés de contratantes da Prefeitura, ou de deputados “benfeitores do município”, na expressão com que os prefeitos (laranja ou verdes) os apresentam à população. O campeão, até agora, é Alexandre Santos.

Benoni é integrante do Núcleo Serramar do PSOL, é jornalista e técnico judiciário.


FONTE: PSOL Serramar

Por falar no "profissionalismo imparcial" dos grandes meios de comunicação, vale a pena rever a íntegra da nota de Leonel Brizola, lida por Cid Moreira, então apresentador do Jornal Nacional, da Rede Globo