sexta-feira, 19 de março de 2010

Blog da reforma agrária já está no ar


19 de março de 2010
Do Blog do Miro

Estreou nesta quinta-feira, dia18, o blog da rede de comunicadores em apoio à reforma agrária e contra a criminalização dos movimentos sociais. Está foi uma das decisões da reunião de montagem da rede, que ocorreu na semana passada na sede do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e que teve a presença de cerca de 100 pessoas, entre jornalistas, radialistas, blogueiros, estudantes e radiodifusores comunitários.

O endereço é http://www.reformaagraria.blog.br/

Um dos objetivos editoriais do blog é acompanhar os trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), instalada no final do ano passado por imposição da bancada ruralista que visa criminalizar os lutam por terra no país. A nova página também servirá para divulgar experiências bem sucedidas de reforma agrária, de assentamentos rurais e de agricultura familiar, que a mídia privada omite. Ela terá sessões fixas, como o raio-x do latifúndio, impactos do agronegócio, quem apóia a reforma agrária, entre outras.

O blog pretende ser um ponto de referência para outros sítios, blogs e publicações que tratam deste tema. Ele é aberto à colaboração de todos os que entendem a urgência da reforma agrária e que não aceitam a criminalização da luta pela terra promovida pelos latifundiários do campo e da mídia. Para aderir à rede de comunicadores basta acessar a página e fazer o cadastro. Contribua com textos, fotos, vídeos.

Os responsáveis pelo blog são os signatários do manifesto de criação da rede. Reproduzo o manifesto abaixo:

Está em curso uma ofensiva conservadora no Brasil contra a reforma agrária, e contra qualquer movimento que combata a desigualdade e a concentração de terra e renda. E você não precisa concordar com tudo que o MST faz para compreender o que está em jogo.

Uma campanha orquestrada foi iniciada por setores da chamada “grande imprensa brasileira” – associados a interesses de latifundiários, grileiros - e parcelas do Poder Judiciário. E chegou rapidamente ao Congresso Nacional, onde uma CPMI foi aberta com o objetivo de constranger aqueles que lutam pela reforma agrária.

A imagem de um trator a derrubar laranjais no interior paulista, numa fazenda grilada, roubada da União, correu o país no fim do ano passado, numa ofensiva organizada. Agricultores miseráveis foram presos, humilhados. Seriam os responsáveis pelo "grave atentado". A polícia trabalhou rápido, produzindo um espetáculo que foi parar nas telas da TV e nas páginas dos jornais. O recado parece ser: quem defende reforma agrária é "bandido", é "marginal". Exemplo claro de “criminalização” dos movimentos sociais.

Quem comanda essa campanha tem dois objetivos: impedir que o governo federal estabeleça novos parâmetros para a reforma agrária (depois de três décadas, o governo planeja rever os “índices de produtividade” que ajudam a determinar quando uma fazenda pode ser desapropriada); e “provar” que os que derrubaram pés de laranja são responsáveis pela “violência no campo”.

Trata-se de grave distorção.

Comparando, seria como se, na África do Sul do Apartheid, um manifestante negro atirasse uma pedra contra a vitrine de uma loja onde só brancos podiam entrar. A mídia sul-africana iniciaria então uma campanha para provar que a fonte de toda a violência não era o regime racista, mas o pobre manifestante que atirou a pedra.

No Brasil, é nesse pé que estamos: a violência no campo não é resultado de injustiças históricas que fortaleceram o latifúndio, mas é causada por quem luta para reduzir essas injustiças. Não faz o menor sentido...

A violência no campo tem um nome: latifúndio. Mas isso você dificilmente vai ver na TV. A violência e a impunidade no campo podem ser traduzidas em números: mais de 1500 agricultores foram assassinados nos últimos 25 anos. Detalhe: levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostra que dois terços dos homicídios no campo nem chegam a ser investigados. Mandantes (normalmente grandes fazendeiros) e seus pistoleiros permanecem impunes.

Uma coisa é certa: a reforma agrária interessa ao Brasil. Interessa a todo o povo brasileiro, aos movimentos sociais do campo, aos trabalhadores rurais e ao MST. A reforma agrária interessa também aos que se envergonham com os acampamentos de lona na beira das estradas brasileiras: ali, vive gente expulsa da terra, sem um canto para plantar - nesse país imenso e rico, mas ainda dominado pelo latifúndio.

A reforma agrária interessa, ainda, a quem percebe que a violência urbana se explica – em parte – pelo deslocamento desorganizado de populações que são expulsas da terra e obrigadas a viver em condições medievais, nas periferias das grandes cidades.

Por isso, repetimos: independente de concordarmos ou não com determinadas ações daqueles que vivem anos e anos embaixo da lona preta na beira de estradas, estamos em um momento decisivo e precisamos defender a reforma agrária.

Se você é um democrata, talvez já tenha percebido que os ataques coordenados contra o MST fazem parte de uma ofensiva maior contra qualquer entidade ou cidadão que lutem por democracia e por um Brasil mais justo.

Venha refletir com a gente:

- por que tanto ódio contra quem pede, simplesmente, que a terra seja dividida?

- como reagir a essa campanha infame no Congresso e na mídia?

- como travar a batalha da comunicação, para defender a reforma agrária no Brasil?

É o convite que fazemos a você.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O Socialismo na e para a Bolívia (da vitória eleitoral à construção da nova ordem)

Marcos Domich* :: 18.03.10


Neste estudo sobre o futuro do processo revolucionário de mudanças
em curso na Bolívia, Marcos Domich conclui respondendo à pergunta como é
possível, hoje e na Bolívia, “um país atrasado, pobre, cercado construir uma
nova ordem, a sociedade socialista. Sim, acreditamos que é possível nas actuais
conjunturas nacional e internacional. Ambas são favoráveis, ainda que à
revolução boliviana, tal como não acontecerá com nenhuma outra, não se lhe será
aberta a passagem para uma avenida Nevski, como já sabemos. Será como disse
Mariátegui «nem cópia nem decalque, criação heróica».”



Ninguém duvidava do triunfo de Evo Morales. Todos sabiam que venceria com mais de 50 por cento dos votos, mas poucos acertaram na percentagem final. Conseguir 64%, é alcançar um cume pouco habitual. No entanto, ratifica o facto de onde há unidade das massas pode-se atingir índices que se aproximam de uma espécie de unanimidade política. Para a outra banda – para a direita e o imperialismo – o êxito da candidatura popular foi uma humilhação nunca vista.
O triunfo permitiu chegar ao controlo de importantes alavancas do poder político, particularmente em ambas as câmaras legislativas. Isto possibilita a aprovação das leis e códigos, e a nomeação de autoridades que facilitarão uma aplicação sistemática e efectiva da nova Constituição Política do Estado (NCPE). Deu-se uma situação sui generis, agora é possível fazer profundas transformações estruturais e super-estruturais pelo mandato da Constituição e das leis. Anteriormente, a revolução, o povo em armas ou o que lhe queiram chamar, executavam medidas revolucionárias sem outra deliberação para além da lubrificada vontade popular. E se aí radicava a sua legitimidade, havia o melindre de não serem «legais», mais ainda, estraçalhavam a velha legalidade que outra coisa não era que a lei formulada, como obra de alfaiate, exactamente à medida dos interesses dos patrões e dos monopólios. Hoje é possível a mudança legítima e completamente legal. Na verdade consumou-se uma revolução política pacífica e que até tem a sua própria Constituição.
As eleições bolivianas têm uma dupla projecção: uma exterior e outra interior. Isso entende-se melhor se falarmos de alguns prolegómenos das eleições. A eminência do êxito da candidatura de Evo determinou que a reacção nativa e o imperialismo espremessem os cérebros a imaginar as maneiras de perturbar o processo eleitoral; como se disse, deram mil e uma voltas na tentativa de as invalidar. A experiência histórica diz-nos como se move uma direita em transe de sofrer uma derrota que, no caso das eleições bolivianas de Dezembro, marcam para ela e para os seus sustentáculos a possibilidade de uma derrota estratégica. Derrota estratégica quer dizer que o processo de mudanças continuará a sua marcha ascendente que inclusive poderá transformar-se num processo revolucionário, com tudo o que esta definição significa. E aqui está o cerne da questão. Às classes dominantes apavora-as a possibilidade da sua extinção histórica.
Entre as medidas perturbadoras estava a tentativa de impedir o voto de cerca de 400.000 cidadãos. Depois tentaram invalidar cerca de 250.000 votos presumivelmente a favor do MAS, de acordo com sondagens confiáveis. Outro objectivo era o de impedir que o futuro Parlamento boliviano contasse com uma maioria de deputados e senadores do MAS, sobretudo na câmara de senadores. O seu sonho esfumou-se e a direita elegeu apenas 10 senadores face aos 26 dos MAS. Percebe-se agora a consigna do voto cruzado. Queriam forçar a diminuição de deputados da bancada do MAS. No final este partido obteve 86 deputados contra 36 do seu imediato seguidor.
A campanha da oposição baseava-se numa acção dissuasora, mentirosa e provocadora, utilizando a poderosa bateria de meios de comunicação de massas ao seu serviço. Todos tocavam pela mesma partitura. O efeito que procurava era deteriorar a imagem dos candidatos oficiais, da esquerda, atribuir-lhe as piores intenções. Chegou-se a tergiversações impossíveis como no caso do comando mercenário dirigido por Rósza Flores. Apesar de estar há muito referenciado, inclusivamente denunciado perante a ONU, de ser encontrado com explosivos na sua própria casa em Budapeste, pretendiam apresentá-lo como um contratado, um agente do governo de Morales.
A dimensão externa é a projecção do êxito do povo boliviano na América Latina. Com o retumbante triunfo de Evo Morales, a chamado «volta à esquerda» continua e pesará nas próximas eleições e acções políticas e diplomáticas. José Mujica, da Frente Ampla uruguaia, derrotou inapelavelmente o direitista branco La Calle. [N. do T.: os partidos tradicionais, que se revezavam no poder, os Blancos e os Colorados]
O caso do Chile é diferente e exige uma profunda reflexão. Trata-se claramente de uma falta de unidade das forças de esquerda e chama a atenção atitudes como a do ex-deputado da Concertação, Enriquez-Ominami.
Face á sucessão de vitórias das candidaturas democratas, progressistas e de esquerda, há já uma década, o imperialismo continuará a procurar por todos os meios - incluindo os mais ilícitos – travá-la e impedir a passagem a novos escalões. Para os seus objectivos, é uma contradição que em cada nova eleição prossiga o êxito do progressismo sobre o conservadorismo, da esquerda sobre a direita. Há provas do que o imperialismo pretende e as Honduras é o exemplo mais claro. Há mais países em que chovem as denúncias de maquinações conspirativas do império: Venezuela, Equador, Nicarágua, Argentina e outros estão debaixo de mira. Até as catástrofes naturais como a do Haiti são pretextos para ensaiar ocupações militares. Obviamente, os governos servis tipo Uribe e as suas sete bases concedidas ao Pentágono são peças importantes da tramóia contra-revolucionária do imperialismo.
Mas no conjunto há uma circunstância que se levanta contra os planos imperialistas: em Cancún nasceu um novo agrupamento dos países da América Latina e do Caribe, a Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe. O imperialismo não vê com bons olhos a emergência de uma nova organização inter-estatal e integracionista de que não fazem parte nem os EUA nem o Canadá. Os povos, os governos progressistas, devem desenvolver os maiores esforços para que esta obra de unidade, de integração e de soberania atinja o seu ponto mais alto.
Com este panorama devem fixar-se algumas premissas que balizem a actividade da esquerda, da ampla representação parlamentar sob a sigla do MAS e até do próprio governo. Em primeiro lugar impõe-se uma atitude da máxima responsabilidade e coerência política, de uma consciência precisa das tarefas, do rumo e das metas que há que atingir no processo de construção de uma nova sociedade.
Ainda que escassa, do mal o menos, haverá uma representação parlamentar totalmente confiável pela sua firmeza política e ideológica, pela sua formação e compromisso com a causa da libertação nacional e social na perspectiva da superação do capitalismo.
Não será uma atitude arrogante ou de satisfação plena pelo rotundo triunfo de Dezembro e dos que já se avizinham para Abril. A direita, que perdeu possibilidades no campo da confrontação democrática, voltará ao caminho anterior e cada vez com mais fúria, fruto da sua impotência política. Com a facilidade que lhe conhecemos, há que temer a sua passagem ao terreno do complot, da resistência organizada e da assumpção da violência social, inclusive do terrorismo.
Também se deve pensar que a reacção, e sobretudo esse amplo diapasão social chamado conservadorismo, tem outras formas de acção na base dos elementos de atraso e da contaminação da reversão sobre a consciência social. O mês de Fevereiro caracterizou-se pela subida dos preços do açúcar, da carne de frango e outros. Certos sectores como os transportes provocaram sérios problemas com greves que não têm qualquer fundamento. Noutros sectores há reivindicações de tipo anárquico e nocivo que, contudo, se podem combater e controlar. Por fim, as medidas oportunas do governo resolveram os transtornos, mas ainda não há uma organização vigilante do povo, das organizações sociais, dos sindicatos e dos partidos de esquerda. Até agora houve uma espécie de convergência, não propriamente acordada, entre as organizações e os sectores referidos. Do que se trata agora é converter a convergência em organização dotada de objectivos, programa e estruturas definidas. A consigna da unidade continua a ser a mais importante desta etapa histórica.
Ainda que de forma não calculada nos seus detalhes, emergiu de forma espontânea o bloco histórico capaz de levar por diante a sua tarefa histórica da construção da nova sociedade. Camponeses e camponesas, operários e operárias, povos originários, camadas médias, intelectualidade avançada e até pequeno empresariado constituem a matéria-prima desse bloco a que há que infundir consciência revolucionária. No bloco histórico, ainda se deve trabalhar muito, e muito arduamente, pela unidade política e pelo esclarecimento ideológico. Tarefa que não é fácil quando se trata de vários componentes de classe e de diversidade de povos que, até agora, não só eram marginalizados e discriminados, como em boa medida eram invisibilizados.
Por outro lado não se pode esquecer e passar por alto sobre as manifestações que priorizam o étnico nacional como a pedra fundamental da nova construção social e até adquirem uma matriz excluente que não estabelece diferenças no seio do outro pólo. Tende-se a ignorar que para o capitalismo não há muralhas da China e ele penetrou em todos os resquícios da sociedade e dos povos.
Por último, nesta formulação de tarefas de conteúdo ideológico, não se pode omitir que só a superação das tendências «naturais» do interesse privado, do seu crescimento e expansão, impedirá que, mais à frente, se convertam num obstáculo à universalização e resgate do verdadeiro sentimento colectivo, solidário, igualitário ou simplesmente comunitário, se se preferir.
À luz da análise da actual situação boliviana podem inferir-se várias conclusões que se traduzirão de facto em linhas de acção e tarefas a derem executadas neste período. Em primeiro lugar há que procurar a maneira de cumprir uma série de promessas eleitorais que não têm esse sentido, mas que na realidade são verdadeiras medidas programáticas transcendentais. Entre outras está a industrialização do país, com um novo sentido social. Perseguem o fim preciso de desenvolver as forças produtivas em todos os seus componentes, o conjunto dos produtores, da classe operária e dos instrumentos de produção. Na agricultura – além de estimular certos caminhos imprescindíveis para a alimentação da população e as necessidades de exportação – está a tarefa de liquidar o latifúndio e libertar as forças produtivas superando o despojo mais que centenário dos povos originários.
Há outros aspectos que fazem parte do processo de mudanças que poderão, finalmente, ser aplicados depois do apoio popular ter ratificado o governo. A NCPE tem inscritas e legalizadas por referendo popular uma série de disposições constitutivas de um verdadeiro salto qualitativo no plano da politica social, da educação e da saúde, que tornem a Bolívia num Estado avançado e moderno. Isto sucede, igualmente, no que se estabelece a nossa política externa como soberana, pacifista, solidária e de relações com todos os países do mundo, baseadas no respeito recíproco, na não ingerência nos assuntos internos de cada país e no benefício mútuo e na solidariedade com os povos em luta pela sua emancipação e defesa da sua soberania. Este é o novo carácter da nossa inserção na comunidade internacional.
Um momento muito importante é o conjunto de disposições que, mantendo o carácter unitário do Estado plurinacional e republicano, estabelece o regime das autonomias departamentais, regionais, municipais e de povos originários. Este novo ordenamento terá de ser aplicado procurando evitar as possíveis fricções entre os factores concorrentes. Será uma prova à imaginação e criatividade e sobretudo ao patriotismo dos bolivianos que privilegiarão o interesse nacional aos interesses regional ou particular.
Não é objectivo destas notas referir todos os aspectos do plano de desenvolvimento para refundar o país e efectuar uma verdadeira revolução que, libertando a dependência, democratizando a sua sociedade, aceitando e promovendo a unidade na diversidade, conduza à construção de uma nova ordem social. Foi precisamente isto que pôs na mesa de trabalho e no debate teórico o binómio presidencial do discurso de tomada de posse de 22 de Janeiro, para o novo mandato de 5 anos.
O Presidente Morales, sob diversos ângulos, afirmou a caducidade do sistema capitalista e o imperativo da construção do socialismo. E de imediato surgiu a pergunta legítima: Como será o socialismo na Bolívia?
Será o socialismo real, o do século XXI, o autogestionário jugoslavo, o modelo chinês, vietnamita ou cubano? Ou será, por fim, o socialismo comunitário? Como o definiram teóricos e analistas políticos bolivianos? A nosso ver a procura de aposições, de adjectivos, é irrelevante para o objectivo final. Desvia a atenção dos temas centrais, das essências e do carácter dos fenómenos. O Vice-presidente Garcia Linera disse, em algum momento das suas intervenções, «não importa como se chama (o socialismo), o que importa é em que consistirá». Estamos de acordo e abordemos como entendemos o conteúdo, a essência desse socialismo.
Fique claro que não partimos do vazio teórico, de uma espécie de vacuum doutrinal. A nossa concepção de socialismo, confessamo-lo à partida, não é nenhuma fórmula nova nem um invento. Ela parte da concepção de Marx, de Engels e de Lenine de uma forma, digamo-lo assim, radical, se isto significa que partimos dos clássicos e desenvolvemos a aplicação da teoria do socialismo científico na Bolívia e para a Bolívia de agora.
Recorremos a uma citação que nos ajuda a aclarar o nosso ponto de partida: «No materialismo histórico há que continuar a inspirar-se também no que diz respeito à análise de outras revoluções que, a partir do Outubro bolchevique, mudaram o rosto do mundo. Não se trata de uma vivência já encerrada e referida ao passado. Junto dos anticomunistas profissionais e de todos os comunistas ou ex-comunistas que são presa da autofobia, há ainda partidos e países que se consideram empenhados nos projectos de construção de uma sociedade para além do capitalismo.» Losurdo, Doménico, Fuga da História? p. 60; ed. Cartago, 2007.)
Geralmente fala-se da Revolução como de um processo único. Na realidade tem duas fases. A primeira é a revolução política que, em síntese, consiste na mudança das classes no poder central de um Estado ou de um país. As classes revolucionárias – operárias, camponesas e outras – substituem as classes dominantes e possuidoras, a oligarquia, a burguesia, etc.. Esta fase, muito dinâmica, é variável no seu prolongamento. Nuns casos a deslocação do velho poder político é rápida, Nalguns casos mais prolongada, em função de numerosos factores que têm a ver sobretudo com as correlações de forças, nacionais e internacionais, da força, do empenho dos pólos da contradição.
Depois vem e por vezes corre paralela – sobretudo nalguns aspectos – a fase da revolução propriamente social. Esta aponta para a transformação, a mudança da base económica da sociedade, do modo de produção e do que habitualmente se conhece como a estrutura económica.
Adiantando-nos um pouco, podemos dizer que a fase política muda, transforma, sobretudo a super-estrutura e o ordenamento jurídico e político que se levanta sobre a estrutura e que responde aos interesses das classes dominantes. Demora muito mais transformar a consciência social, sobretudo aquele extracto que se denomina consciência quotidiana ou habitual. Por isso se fala tanto da super-vivência do passado, da conduta e do modo de actuar e pensar das pessoas que se supõe já não deveriam continuar a ser como são.
Em que consiste a mudança da estrutura, do modo de produção; a revolução social propriamente dita? Esquematicamente vamos considerar três elementos que consideramos fundamentais: o sistema de propriedade dos meios de produção, as relações sociais de produção que resultam sobretudo da anterior e o modo de distribuição da riqueza social.
O primeiro elemento é o determinante dos outros componentes e acabará reflectindo-se até em elementos tão etéreos como a psicologia das pessoas e a vida espiritual de uma sociedade. Da forma das relações de produção. Na sua forma estabelece a modalidade com que o proprietário dos meios de produção compra, ou mais exactamente ainda, como se apropria do trabalho do que vem a ser o «seu» dependente, o seu assalariado ou o seu peão. Estas relações de produção são as que encarnam a contradição entre o possuidor e o despossuído e, mais cedo que tarde, revelar-se-ão como luta de classes.
Finalmente, conforme seja a base económica, os membros de uma sociedade recolhem a riqueza social (podemos dizer «apropriam-se», particularmente do excedente). Marx comparava a riqueza social com uma grande panela na qual os indivíduos, obrigatoriamente membros de uma classe social, extraíam da panela uma parte dessa riqueza, de acordo com o tamanho da sua colher. Ínfima, minúscula, a dos operários e da pobreza em geral e enorme, extraordinariamente grande, a do burguês. Aí esta com simplicidade em que consiste a injustiça social.
Não pode haver socialismo de nenhuma classe se não se transforma essa base económica. Para falar da construção do socialismo com propriedade deve colocar-se a meta histórica da liquidação da propriedade privada dos meios de produção. Isto não acontece da noite para o dia nem significa o desaparecimento de toda a forma de propriedade; mesmo no socialismo integral, o comunismo, não desaparece a propriedade pessoal, ainda que a propriedade dos meios de produção, a propriedade social, seja universal e completa.
No segundo elemento, muda totalmente o carácter das relações de produção. O operário, o trabalhador, o produtor dos bens materiais emancipou-se e vai superando o seu estado de alienação, o estado de dependência de outra vontade e do estado de separação, de perda de si mesmo e do fruto do seu trabalho.
Por último, num processo que não é imediato, ir-se-á nivelando a distribuição da riqueza social. O excedente tornar-se-á cada vez mais colectivo. Por outras palavras terá aumentado de tamanho a colher dos trabalhadores e dos pobres. Haverá mais justiça social e ir-se-á estabelecendo essa fórmula da primeira etapa do socialismo «de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo o seu trabalho». Na terminologia em voga na Bolívia tornar-se-á realidade a aspiração do «sumaj causay», quechua, do «sumaj k’amaña», aymara, do «vivir bien», castiço.
Concluímos, dizendo que só uma revolução social completa pode acercar-nos desse ideal, de forma nenhuma uma utopia como era moda dizer há alguns anos. E nenhuma das suas fases pode ser separada da outra. Uma revolução, somente política pode facilmente ser revertida, sobretudo se deixou intacta a base ou se se deixarem intocáveis muitas formas de propriedade privada dos meios de produção. E não haverá nenhuma revolução social, nenhuma mudança estrutural se não se tender para a liquidação da alienação do trabalhador.
Por último, em duas palavras, respondemos à premente pergunta de se é possível, hoje e na Bolívia, um país atrasado, pobre, cercado construir uma nova ordem, a sociedade socialista. Sim, acreditamos que é possível nas actuais conjunturas nacional e internacional. Ambas são favoráveis, ainda que à revolução boliviana, tal como não acontecerá com nenhuma outra, não lhe será aberta a passagem para uma avenida Nevski, como já sabemos. Será como disse Mariátegui «nem cópia nem decalque, criação heróica».

Este texto que nos foi enviado pelo autor foi redigido com base no editorial de Marxismo Militante nº 45, de que Marcos Domich é director.


* Marcos Domich, Professor da Universidade de La Paz, é amigo e colaborador de odiario.info.

Tradução de José Paulo Gascão

Pesquisador dos EUA lança livro sobre MST

18 de março de 2010

Na próxima sexta-feira (19/3), a Editora Unesp, o Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (NEAD) e a Cátedra Unesco de Educação do Campo e Desenvolvimento Territorial promovem debate sobre o livro Combatendo a desigualdade social - o MST e a Reforma Agrária no Brasil.

Trata-se de uma pesquisa de proporções grandiosas. Elaborado por uma equipe de 19 especialistas brasileiros e estrangeiros - entre eles, cientistas políticos, sociólogos, engenheiros agrônomos, jornalistas e até um poeta - consiste em um dos documentos mais completos sobre a luta pela Reforma Agrária no Brasil.

Organizada pelo cientista político Miguel Carter, autor de vários textos sobre o MST, a obra tem como foco o trabalho desenvolvido para "combater os padrões históricos de desigualdade no Brasil rural". Ao longo de suas quase 600 páginas, os autores investigam os motivos que provocaram a abissal desigualdade da estrutura fundiária brasileira e as possíveis consequências desse flagelo social, assim como as reações populares a essa situação. O gancho para este estudo é justamente o MST, movimento que, de acordo com estimativas de Carter, conta com 1,14 milhão de membros - sendo, portanto, referência mundial no que se refere ao combate de políticas neoliberais e disparidade social.

Para a mesa de debates, estarão presentes Miguel Carter, cientista político e professor da School of International Service da American University, em Washington, DC (Estados Unidos); Bernardo Mançano Fernandes, geógrafo, professor da Unesp e coordenador da Cátedra Unesco de Educação do Campo e Desenvolvimento Territorial; Neuri Rossetto, da coordenação nacional do MST; Plínio de Arruda Sampaio, presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária e o senador Eduardo Suplicy.

O encontro - gratuito - acontece às 16h, no auditório da Editora Unesp, na Praça da Sé, 108 - 7º andar, no Centro de São Paulo (SP).

terça-feira, 16 de março de 2010

“Aos que virão depois de nós”

“Cheguei às cidades num período de desordens, quando aqui a fome reinava. Vim para o meio do povo quando imperava a revolta, e cresci com ela. Assim passou-se o tempo que me foi concedido nesta Terra (...) Mas vós, que renascereis do dilúvio no qual nós nos afogamos, pensai também, quando falardes de nossa fraqueza, na sombria época de que haveis escapado.

Nós caminhamos, mudando de país mais do que de sapatos, através da luta de classes, confundidos, quando havia apenas injustiça e não protesto. E ainda assim sabemos: o ódio, mesmo contra a degradação, contorce as feições. A ira, mesmo contra a injustiça, torna a voz áspera. Ah, nós que queríamos preparar o chão da amizade, não pudemos, nós mesmos, ser amigos. Mas, vós quando tudo estiver tão perfeito que o homem ajude o homem, lembrai-vos de tudo isto, quando pensardes em nós”

(Bertold Brecht, “Aos que virão depois de nós”).

Os inimigos

Pablo Neruda


Por esses mortos, os nossos mortos,

peço castigo. Para os que salpicaram a

pátria de sangue, peço castigo. Para o

verdugo que ordenou esta morte, peço

castigo. Para o traidor que ascendeu

sobre o crime, peço castigo. Para o que

deu a ordem de agonia, peço castigo.

Para os que defenderam este crime,

peço castigo. Não quero que me dêem

a mão empapada de nosso sangue,

peço castigo. Não vos quero como

embaixadores, tampouco em casa

tranqüilos. Quero ver-vos aqui

julgados nesta praça, neste lugar.

Quero castigo!

domingo, 14 de março de 2010

Gregório Bezerra - Uma entrevista histórica

Clique no link abaixo para assistir ao vídeo com uma entrevista histórica de Gregório Bezerra:


http://video.google.com.br/videoplay?docid=-8339651336935878860&hl=pt-BR#

Esta entrevista foi realizada quando Gregório Bezerra completara 76 anos no exílio. Documentário de Luiz Alberto Sanz, Lars Safstrom, Leonardo Cespedes e Staffan Lindqvist.

Feito de ferro e de flor

Os versos célebres dedicados pelo poeta Ferreira Gullar ao líder comunista, Gregório Bezerra, constantes do poema “A história de um valente”:

"Mas existe nesta terra
muito homem de valor
que é bravo sem matar gente
mas não teme o matador,
que gosta da sua gente
e que luta a seu favor,
como Gregório Bezerra,
feito de ferro e de flor".
Salve 13 de março!!!
110 anos de Gregório Bezerra
Com a revolução, rumo ao socialismo

Só haverá paz quando...


Fundo Florestan Fernandes



Desde 12 de março, o Fundo Florestan Fernandes, da Universidade Federal de São Carlos, disponibliza na internet aproximadamente 30 mil páginas de documentos pessoais e profissionais do sociólogo Florestan Fernandes. Os documentos - acessados no endereço online http://www.bco.ufscar.br/ - foram doados pela família para a Universidade.


Mais uma fonte para se conhecer a obra do sociólogo.

Cuba na berlinda: pronunciamento da Assembleia Nacional do Poder Popular da República de Cuba

A votação hipócrita e indecorosa do PE
por Assembleia Nacional do Poder Popular da República de Cuba

Depois de uma campanha concertada de poderosas empresas mediáticas, fundamentalmente da Europa, que atacaram ferozmente Cuba, o Parlamento Europeu acaba de aprovar, na sequência de um indecoroso debate, uma resolução contra o nosso país que manipula sentimentos, distorce factos, esgrime mentiras e oculta realidades. [1]

O pretexto utilizado foi a morte de um recluso, primeiramente condenado por delito comum e depois manipulado por interesses norte-americanos e pela contra-revolução interna, que por vontade própria recusou ingerir alimentos, apesar das advertências e da intervenção de médicos especialistas cubanos.

Este lamentável facto não pode ser utilizado para condenar Cuba com o argumento de que podia tê-lo evitado. Se há campo em que não há palavras para atacar Cuba, pois a realidade é irrefutável, é o da luta pela vida dos seres humanos, sejam eles nascidos em Cuba ou noutros países. Basta o exemplo, silenciado pela imprensa hegemónica, da presença de médicos cubanos no Haiti, desde há onze anos antes do terramoto de Janeiro último.

Por trás desta condenação há um profundo cinismo. Quantas vidas de crianças se perderam em nações pobres pela decisão dos países ricos, representados no Parlamento Europeu, de não cumprir os seus compromissos de ajuda ao desenvolvimento. Todos sabiam que era uma sentença de morte massiva, mas optaram por preservar os níveis de esbanjamento e ostentação de um consumismo a longo prazo suicida.

Também ofende os cubanos essa tentativa de nos darem lições, no momento em que na Europa se reprimem imigrantes e desempregados, ao mesmo tempo que em Cuba o povo cubano, em reuniões de vizinhos propõe os seus candidatos às eleições municipais, livremente e sem intermediários.

Os que participaram ou permitiram o contrabando aéreo de presos, a criação de presídios ilegais e a prática de torturas, não têm moral para avaliar um povo agredido e brutalmente bloqueado.

Tão discriminatória e selectiva condenação só pode ser explicada pelo fracasso de uma política incapaz de pôr de joelhos um povo heróico. Nem a Lei Helms Burton nem a Posição Comum europeia, surgidas no mesmo ano, nas mesmas circunstâncias e com iguais propósitos, ambas lesivas da nossa soberania e dignidades nacionais, têm o mais mínimo futuro, pois os cubanos rejeitam a imposição, a intolerância e a pressão como norma das relações internacionais.


11/Março/2010
[1] http://www.europarl.europa.eu/

Esta declaração encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 10 de março de 2010

Exemplo de revolucionário

"Gostaria de ser lembrado como o homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos; amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas; odiado e temido pelos capitalistas" Gregório Bezerra.

Gregório Bezerra

No dia 13 de março de 2010 serão comemorados os 110 anos de Gregório Lourenço Bezerra, lendário militante comunista, líder camponês e ex-Sargento do Exercito.


Doar sangue é necessário

O volume de sangue coletado durante a doação é proporcional ao peso de quem está doando. Em média, cada bolsa de sangue contém 450ml.

O que é preciso para doar sangue:

Estar em boas condições de saúde;
Portar documento oficial de identidade com foto;
Ter no mínimo 18 e no máximo 65 anos de idade;
Ter peso acima de 50kg;
Não estar em jejum e ter tido alimentação não gordurosa;
Ter dormido pelo menos 6 horas antes da doação;
Não ter ingerido bebidas alcoólicas nas 12 horas anteriores à doação.

Impedimentos temporários:

Gripe ou febre;
Gravidez;
90 dias após parto normal e 180 dias após cesariana;
Ter tatuagem ou ter se submetido a tratamento com acupuntura nos últimos 12 meses;
Ter se exposto à situação de risco para a Aids (com múltiplos parceiros sexuais ou usuários de drogas);

Impedimentos definitivos:

Doença de Chagas ou malária;
Hepatite após os 10 anos de idade;
Ser portador dos vírus HIV (Aids), HCV (Hepatite C), HBC (Hepatite B), HTLV;
Usar, ou já ter usado, drogas injetáveis.

segunda-feira, 8 de março de 2010

A não-violência: o mito e as realidades


por Domenico Losurdo
entrevistado por Marie-Ange Patrizio [*]


Na obra agora lançada em Itália, La non-violenza. Una storia fuori dal mito, o professor Domenico Losurdo explora o conceito de não-violência e a sua utilização actual. Afastando-se das ideias feitas, ele mostra as ambivalências do conceito. Muitas vezes a exigência pacifista pode também constituir uma fuga à responsabilidade e torna-se uma roupagem de propaganda para toda a espécie de ingerências.


Marie-Ange Patrizio: O conceito de não-violência faz-nos pensar imediatamente em Gandhi. Qual o seu juízo acerca desta grande personalidade histórica?

Domenico Losurdo: Há que distinguir duas fases na evolução de Gandhi. No decorrer da primeira fase, ele não pensa de todo numa emancipação geral dos povos coloniais. Ao contrário, ele conclama a potência colonial – a Grã-Bretanha – a não confundir o povo indiano – que a exemplo dos ingleses pode exibir uma civilização antiga e origens raciais "arianas" – com os negros, com, até mesmo, os "grosseiros cafres, cuja ocupação é a caça e cuja única ambição é acumular um certo número de cabeças de gado para conquistar uma mulher e levar a seguir uma existência de indolência e de nudez" (sic).

A fim de obter a cooptação pela raça dominante, pelo povo dos senhores (arianos e brancos), Gandhi no princípio do século XX conclama os seus co-nacionais a porem-se ao serviço do exército imperial empenhado numa repressão feroz contra os zulus.

Sobretudo, durante a Primeira Guerra Mundial, o presumido campeão da não-violência propõe-se a recrutar 500 mil homens para o exército britânico. Ele faz isso com tamanho zelo que escreve ao secretário pessoal do vice-rei: "Tenho a impressão que se eu me tornasse o vosso recrutador chefe poderia vos submergir com homens". Quando se dirige aos seus co-nacionais ou ao vice-rei, Gandhi insiste de modo quase obcecado sobre a disponibilidade para o sacrifício que todo o povo é conclamado a demonstrar: é preciso "dar o nosso apoio total e decidido ao Império", a Índia deve estar pronta para "oferecer, no momento crítico, os seus filhos aptos a combater como oferenda ao Império"; "devemos, para a defesa do Império, dar todo o homem que disponhamos".

Com uma coerência de aço, Gandhi deseja que os seus próprios filhos se alistem e participem da guerra.

Marie-Ange Patrizio: Quanto a isso, tu confrontas a atitude de Gandhi com aquela tomada pelo movimento anti-militarista de inspiração socialista e marxista, e é este último que vai se portar melhor.

Domenico Losurdo: Sim, recuso o mito segundo o qual o marxismo seria sinónimo de culto da violência. Remeto em particular à figura de Karl Liebknecht, que a seguir um dos fundadores do Partido Comunista Alemão, antes de ser assassinado com Rosa Luxemburgo. Depois de ter durante muito tempo lutado contra o rearmamento e os preparativos de guerra, quando é chamado à frente de combate, antes de ser preso por causa do seu pacifismo, Liebknecht envia uma série de cartas à sua mulher e aos seus filhos: "Não atirarei [...] Não atirarei mesmo que me seja ordenado. Poderão fuzilar-me por causa disso".

Marie-Ange Patrizio: Resta o facto de que Liebknecht acabou por saudar a violência da Revolução de Outubro desencadeada por Lenine.

Domenico Losurdo: Não se pode perder de vista que no princípio da Primeira Guerra Mundial, Lenine, longe de celebrar à maneira de Gandhi o valor da vida militar e do combate no frente, exprime a sua "profunda amargura". A esperança, moral antes de ser política, renasce nele graças a um fenómeno que poderia talvez bloquear a máquina infernal da violência: é a "fraternização entre os soldados das nações beligerantes, até nas trincheiras". Lenine escreve: "Está bem que os soldados maldigam a guerra. Está bem que exijam a paz. A fraternização pode e deve tornar-se fraternização em todas as frentes. O armistício de facto numa frente pode e deve tornar-se um armistício de facto em todas as frentes".

Infelizmente, esta esperança será frustrada: os governos beligerantes tratam a fraternização como uma traição. Neste ponto, trata-se de escolher não entre violência e não-violência, mas sim entre a violência da continuação da guerra de um lado e a violência da revolução destinada a por fim à carnificina insensata, de outro lado.

Os dilemas morais de Lenine não são diferentes dos dilemas morais com os quais se confrontaram nos Estados Unidos os pacifistas cristãos das primeiras décadas do século XIX (é de capítulo da história que parte o meu livro). Opostos a toda forma de violência e à escravidão dos negros (ela própria expressão de violência), enquanto a Guerra de Secessão se prepara e depois se desencadeia, os pacifistas cristãos são chamados a fazer uma escolha trágica: apoiar directamente ou indirectamente a continuação desta forma particularmente horrível de violência que á a instituição da escravatura ou então aderir a esta espécie de revolução abolicionista que acabou por ser a guerra da União? Os pacifistas mais amadurecidos escolheram esta segunda alternativa. Eles situam-se de maneira semelhante àquela que mais tarde caracterizará Lenine, Liebknecht e os bolcheviques no seu conjunto.

Marie-Ange Patrizio: Deixámos Gandhi no seu papel de recrutador chefe ao serviço do exército britânico. Falou entretanto de uma segunda fase do seu empenhamento. Quando e como surge ele?

Domenico Losurdo: Dois acontecimentos o determinaram: um de carácter internacional, o outro nacional. A Revolução de Outubro e a difusão da agitação comunista nas colónias e na própria Índia constituem um formidável golpe violento e brusco na ideologia da pirâmide racial e torna obsoleta a aspiração à cooptação na raça branca ou ariana, que deve agora enfrentar a revolta generalizada dos povos de cor.

Mas o que vai desempenhar um papel decisivo é sobretudo uma experiência directa e dolorosa para o povo indiano. Este esperara melhorar a sua condição batendo-se valentemente no exército britânico no decorrer da Primeira Guerra Mundial. Mas apenas terminadas as celebrações da vitória, na Primavera de 1919 o poder colonial torna-se responsável pelo massacre de Amritsar. Esta repressão não só custou a vida a centenas de indianos desarmados como comporta também uma terrível humilhação nacional e racial pela obrigação imposta aos habitantes das cidades rebeldes de terem de arrastar a quatro patas para entrar ou sair de suas casas. Para citar Gandhi, "homens e mulheres inocentes foram obrigados a arrastar-se como vermes, sobre o ventre". Daí resulta uma vaga de indignação por causa das humilhações, da exploração e da opressão infligidas pelo império britânico: o seu comportamento é um "crime contra a humanidade, que talvez não encontre paralelo na história". Tudo isto faz desaparecer junto aos indianos o desejo de serem cooptados numa raça dominante que agora lhes parece odiosa e capas de todas as infâmias.

Marie-Ange Patrizio: A partir de que momento Gandhi leva realmente a sério a sua profissão de fé da não-violência?

Domenico Losurdo: Na realidade, no segundo Gandhi, não desapareceu de todo a disponibilidade para conclamar os seus co-nacionais a acorrer aos campos de batalha ao lado da Grã-Bretanha; mas agora ele coloca como condição para este apelo às armas a concessão da independência da Índia. Em contrapartida, é difícil imaginar o segundo Gandhi a fazer a promoção da participação dos seus co-nacionais na repressão de uma revolta como a dos zulus (um povo cruelmente oprimido pelo colonialismo). A partir da Revolução de Outubro e da repressão de Amritzar o movimento independentista indiano é uma parte integrante do movimento de libertação nacional dos povos oprimidos. E Gandhi identifica-se plenamente com este movimento sem proceder a uma divisão entre violentos e não-violentos. Em Junho de 1942, exprime a sua "profunda simpatia" e a sua "admiração pela luta heróica e os sacrifícios infinitos" do povo chinês, decidido a defender "a liberdade e a integridade" do país. Trata-se de uma declaração contida numa carta dirigida a Chiang-Kai-Chek, que neste momento estava aliado ao Partido Comunista Chinês. Ainda em Setembro de 1946 – ou seja, depois de Churchill ter aberto a Guerra Fria com o seu discurso de Fulton – Gandhi exprime a sua simpatia pelo "grande povo" da União Soviética, dirigido por "um grande homem como Staline".

Marie-Ange Patrizio: Enquanto fazes um julgamento positivo sobre o segundo Gandhi e sobre Martin Luther King, mostras-te muito crítico quanto ao Dalai Lama, que no entanto é celebrado actualmente como o herdeiro da tradição não violenta.

Domenico Losurdo: No meu livro cito um ex-funcionário da CIA, que declara tranquilamente que a não-violência era um "écran" de que o Dalai Lama se servia para as relações públicas da revolta armada que estimulava no Tibete, graças aos financiamentos e aos arsenais estado-unidenses [1] . Contudo, esta revolta fracassou por falta de apoio da população. Este ex-funcionário da CIA acrescenta que, apesar deste fracasso, esta operação proporcionou aos Estados Unidos ensinamentos que a seguir encontraram aplicação "em lugares como o Laos e o Vietname", ou seja, no decorrer de guerras coloniais que foram as mais bárbaras do século XX.

Enquanto em recompensa o Dalai Lama recebia reconhecimentos e homenagens de Washington, Martin Luther King organizava a contestação contra a guerra do Vietname e acabava por morrer assassinado exactamente por esta razão.

A antítese entre Gandhi e o Dalai Lama não é menos clara. O primeiro fala de "métodos hitlerianos" de "hitlerismo" a propósito do bombardeamento atómico de Hiroshima e Nagasaki. E vamos abrir agora o Corriere della Sera de 15 de Maio de 1998: ao lado de uma foto do Dalai Lama com as mãos juntas em sinal de oração encontra-se um pequeno artigo cujo sentido é claro no seu título: "O Dalai Lama alinha-se ao lado de Nova Delhi: 'Eles também têm direito à bomba atómica' ", a fim de contrabalançar – é precisado a seguir – o arsenal nuclear chinês. Evidentemente, nem uma palavra sobre a ameaça que representa o potente arsenal nuclear estado-unidense, face ao qual foi concebido o modesto arsenal chinês.

E poder-se-ia continuar neste caminho...

Marie-Ange Patrizio: Há outra coisa?

Domenico Losurdo: A identificação de Gandhi com o movimento anti-colonialista é tão forte que a 20 de Novembro de 1938, sempre denunciando a barbárie da Noite de cristal e das "perseguições anti-judias" que "parecem não ter nenhum precedente na história", Gandhi não hesita em condenar a colonização sionista da Palestina como "incorrecta e desumana" e contrária a todo "código moral de conduta". Não me parece que o Dalai Lama haja alguma vez exprimido simpatia para com as vítimas da persistente colonização sionista e não poderia ser de outra forma uma vez que os protectores estado-unidenses de "Sua Santidade" são os principais responsáveis, com os dirigentes israelenses, pelo interminável martírio infligido ao povo palestino.

Marie-Ange Patrizio: Além do Dalai Lama, tu também te exprimes em termos bastante críticos acerca das "revoluções coloridas", fazendo-as igualmente partir dos incidentes da Praça Tienanmen.

Domenico Losurdo: Os documentos que temos agora à nossa disposição, e que foram publicados e celebrados no Ocidente como revelação final da verdade, os ditos Tienanmen Papers, demonstram sem sobra de dúvida que as manifestações que se verificaram em Pequim (e em outras cidades da China) na Primavera de 1989 estavam longe de ser pacíficas. Os manifestantes tiveram mesmo o recurso a gases asfixiantes e tinham à sua disposição ferramentas técnicas refinadas a ponto de poder falsificar a edição do Diário do Povo. Tratou-se claramente de uma tentativa de golpe de Estado. [2]

As sucessivas "revoluções coloridas" [3] tiraram proveito deste fracasso e aperfeiçoaram técnicas mais refinadas, expostas e ensinadas com uma paciência pedagógica num manual estado-unidense traduzido nas diversas línguas dos Estados a desestabilizar, e difundido gratuitamente e maciçamente [4] . Este manual é uma espécie de "Instruções para o golpe de Estado" a efectuar com a ajuda das embaixadas e de certas fundações estado-unidenses e ocidentais. Analisei isso minuciosamente no meu livro.

Interrogo-me – referindo-me também aos acontecimentos recente no Irão [5] e servindo-me sempre sobretudo de fontes e testemunhos ocidentais – sobre o significado estratégico que tomaram doravante, no quadro da política das mudanças de regimes, ferramentas como a Internet, Facebook, Twitter, os telemóveis, etc. [6]
Marie-Ange Patrizio: No teu livro analisas também o debate teológico e filosófico sobre a violência, que se desenvolve no século XX e cujos protagonistas são grandes teólogos como Reinhold Niebuhr e Dietrich Bonhoeffer e grandes filósofos como Hannah Arendt e Simone Weil. Tem-se a impressão que as tuas simpatias vão para os teólogos...

Domenico Losurdo: Sim, reconheço o encanto de Dietrich Bonhoeffer que, embora tendo sido durante algum tempo admirador e discípulo de Gandhi, conspira para organizar um atentado contra Hitler o que leva à forca, quando enfrenta o horror do Terceiro Reich. Àqueles que gostariam de liquidar como numa orgia de sangue o episódio histórico que começou em Outubro de 1917 e prosseguiu com as outras grandes revoluções do século XX, gostaria de sugerir que reflectissem sobre a polémica de Bonhoeffer com aqueles que "escolheram o asilo da virtude privada". Na realidade, não é "senão enganando-se a si próprio [que se pode] manter pura a sua própria não censurabilidade privada e evitar que ela seja não seja censura agindo de modo responsável no mundo". É a atitude – afirma o teólogo cristão – do "fanático", o qual "acredita ser capaz de se opor ao poder do mal com a pureza da sua vontade e do seu princípio". Na realidade, "ele coloca a sua própria inocência pessoal acima da sua responsabilidade para com os homens".

Marie-Ange Patrizio: Partindo do Dalai Lam e das "revoluções coloridas", denuncias a transformação da palavra de ordem das não-violência numa ideologia da desestabilização, do golpe de Estado e em última análise da guerra. Mas o teu livro também contém uma mensagem positiva?

Domenico Losurdo: O livro conclui conclamando a dar uma nova força à luta pela paz, reactualizando a grande tradição do movimento anti-militarista. No decorrer da história, talvez nunca como nos nossos dias, jamais foi prestada uma homenagem tão insistente ao princípio da não-violência. Ungido por uma auréola de santidade, Gandhi desfrutou de uma admiração e até de uma veneração incontestada e difundida universalmente. Os heróis da nossa época encontram a sua consagração na medida em que, na base de motivações reais ou de cálculos de realpolitik, são colocados no panteão dos não violentos. Mas não é por isso que a violência real diminuiu e ela manifesta-se não só nas guerras e ameaças de guerra como também nos bloqueios, nos embargos, etc. A violência continua a estar à espreita até nas suas formas mais brutais.

Podia-se ler recentemente no Corriere della Sera um ilustre historiador israelense evocar tranquilamente a perspectiva de "uma acção nuclear preventiva por parte de Israel" contra o Irão. O paradoxo é que, para ser eficaz, a luta pela paz deve saber desmascarar a transformação, promovida pelo imperialismo, da palavra de ordem da não-violência numa ideologia destinada a justificar a prevaricação e a lei do mais forte nas relações internacionais e, em última análise, a guerra.


04/Março/2010

Notas
[1] "Dalai Lama & Obama: O encontro entre dois Prémio Nobel da mentira" , por Domenico Losurdo, Réseau Voltaire, 17/Fevereiro/2010.
[2] "Tienanmen, 20 ans après" , por Domenico Losurdo, Réseau Voltaire, 9 juin 2009.
[3] "La technique du coup d'État coloré" , por John Laughland, Réseau Voltaire, 4 janvier 2010.
[4] "L'Albert Einstein Institution: la non-violence version CIA" e "Impérialistes de droite et impérialistes de gauche" , por Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 4 juin 2007 et 25 août 2008.
[5] "La CIA et le laboratoire iranien" e "Pourquoi devrais-je mépriser le choix des Iraniens?" , por Thierry Meyssan ; "Iran: le bobard de l'élection volée" , par James Petras, Réseau Voltaire 17, 19 et 21 juin 2009.
[6] "La "révolution colorée" échoue en Iran" , por Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 24 juin 2009.

[*] A obra La non-violenza. Una storia fuori dal mito actualmente está disponível apenas em italiano. Pode ser encomendada às edições Laterza (287 pgs., ISBN: 9788842092469, 22 euros).

Entrevista realizada em italiano. A tradução para o francês encontra-se em http://www.voltairenet.org/article164337.html e em http://www.domenicolosurdo.it/

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

Luiz Carlos Prestes: 20 anos sem o "Cavaleiro da Esperança"

Leia abaixo o discurso proferido neste domingo (7/3) por Marcus São Thiago, Secretário Geral do Instituto Luiz Carlos Prestes (ILCP) durante homenagem feita ao lutador do povo no Rio de Janeiro.

PRESTES VIVE!

Em 7 de março de 1990, desaparecia da vida cotidiana política do Brasil, o inesquecível Senador Luiz Carlos Prestes, nosso Cavaleiro da Esperança, na homenagem de Jorge Amado, sem dúvida um ícone revolucionário da América Latina e do Mundo.

Sua efetiva atuação histórica começou na década de 20, com a Coluna Prestes – o momento culminante do tenentismo – que reuniu um exército guerrilheiro de aproximadamente 1.500 homens e mulheres, comandados por uma dúzia de oficiais do Exército e da Força Pública de São Paulo, entre os quais se destacava Prestes. A Coluna percorreu 25.000 quilômetros, através de 13 estados do Brasil, derrotando 18 generais governistas, sem jamais ter sido desbaratada, apesar do enorme poderio bélico mobilizado contra ela. Inspirados nos ideais de “representação e justiça”, os “tenentes” batiam-se por conquistas como o voto secreto e pela moralização dos costumes políticos, corrompidos pelo domínio oligárquico em vigor durante a República Velha

O assassinato da companheira de Prestes, Olga Benário, resultado de uma perseguição imposta pelo governo de Getúlio Vargas, que a entregou, com respaldo do Supremo Tribunal Federal, à Alemanha Nazista; as prisões; a clandestinidade; os exílios; a perseguição de vários governos ao Partido Comunista Brasileiro, do qual foi secretário geral por muitos anos - nada disso abalou sua convicção de dedicar sua vida à causa de um mundo melhor para todos. Prestes nos falava que guardava do testemunho de vida de Olga “a lição de que o ser humano resiste a qualquer provação com dignidade, quando a sua luta é pela justiça e liberdade”.

Prestes lutou uma vida inteira em prol do ser humano. Nunca se rendeu ao capital. Constituiu-se num exemplo de conduta reta na vida pública. Foi eleito senador, após 10 anos de prisão impostos pelo governo Vargas, e ajudou a elaborar a Constituinte de 1946, uma carta magna avançada para a época, graças à atuação e às propostas aprovadas pela bancada de deputados do PCB, como o direito de greve.

No período do golpe militar de 64, ainda secretário geral do partido, exilou-se em Moscou, por determinação do PCB, pois era o primeiro da lista de perseguições políticas do regime de exceção, que cassou o mandato do presidente João Goulart, de muitos políticos e, principalmente, de militantes de esquerda no país. Na sua volta do exílio, em outubro de 1979, o aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, foi tomado por uma multidão de 10.000 pessoas, principalmente de correligionários, que queriam ver e ouvir uma das maiores lideranças políticas da América Latina no século passado. O “velho”, como era carinhosamente chamado nesta época por nós que militávamos com ele, discursou, de improviso, do teto de um automóvel e lembrou de citar, um por um, todos os membros do comitê central do PCB, “desaparecidos” pela ditadura que estava no fim.

Por muitos anos minha geração e outras não puderam estudar e conhecer melhor a história do Cavaleiro da Esperança, devido aos anos de arbítrio e restrição dos direitos civis, impostos pelos autoritários de plantão em vários períodos do século 20 no país, fantoches dos interesses imperialistas, que enxergavam e ainda enxergam em Prestes uma ameaça constante à manutenção de um sistema baseado na exploração do homem pelo homem.

A perseguição implacável exercida pelos representantes do capital, durante toda a sua vida, não foi suficiente para fazer calar em Prestes suas convicções socialistas, nem arrefecer seu ímpeto constante no combate ao capitalismo selvagem, que tanta desigualdade, miséria e exclusão social provoca no mundo. Por vezes surgiam divergências entre Prestes e companheiros de lutas quanto às táticas para combater o capitalismo. Nas discussões e embates travados só não abria mão de seus princípios. Não havia possibilidade de conciliar com o inconciliável. Por vezes, esta postura o deixou isolado politicamente. Não importava: seu maior compromisso era com o povo e com as lutas travadas para a sua efetiva libertação e avanços.

Sua maior virtude foi lutar e se entregar pelo que acreditava ser responsabilidade de todos: um mundo melhor. PATRIOTA, COMUNISTA E REVOLUCIONÁRIO, Prestes deixou um exemplo de dedicação integral ao povo brasileiro e à causa internacionalista do socialismo. Neste momento em especial, a classe política de nosso país deveria se mirar na sua conduta. Prestes, apesar de toda a sua liderança e importância histórica, faleceu sem possuir bens e sobrevivia apenas com a colaboração de alguns sinceros e dedicados companheiros de luta e ideais. Inclusive chegou a recusar ofertas e possibilidades legais de pensões e indenizações oferecidas pelo governo como reparação ao que passou nas mãos de seus algozes.

A fim de preservar o seu legado e acervo documental histórico, um grupo de companheiros e correligionários, capitaneados por Anita Prestes, fundou o INSTITUTO LUIZ CARLOS PRESTES, no Rio de Janeiro. As finalidades e atividades do ILCP pretendem envolver, fundamentalmente, a preservação documental e do acervo relacionado às vidas de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário Prestes, além da realização, no futuro, de atividades educacionais que visem promover o legado de Prestes junto às novas gerações e a inclusão social, através da implantação de projetos e programas. Além disso, o ILCP vai manter parceria e apoio constantes aos movimentos sociais, principalmente à luta pela reforma agrária, como instrumento fundamental para promover a inclusão social, através da maior riqueza e patrimônio desta nação e do seu povo: a terra.

No mais, fica a nossa convicção de que a conduta e o exemplo de Prestes servem à história deste país como referências permanentes para a construção de um Brasil bem melhor no futuro.

Seu exemplo de dedicação inabalável e intransigente, na causa de uma sociedade mais justa foi o maior legado que devemos transmitir às atuais e futuras gerações. Essa é a nossa grande responsabilidade! Suas idéias não morrerão jamais! Continuarão em cada um que faça da dedicação integral ao ser humano a verdadeira razão de sua existência, para a efetiva colaboração na construção de uma sociedade e mundo mais justos e melhores!

Prestes vive! Viva Prestes!


Marcus São Thiago
Advogado, Educador e Secretário Geral do ILCP- Rio de Janeiro

NA LUTA COMEMORAMOS OS 100 ANOS DO 8 DE MARÇO


NA LUTA COMEMORAMOS OS 100 ANOS DO 8 DE MARÇO


Há 100 anos, Clara Zetkin, dirigente do Partido Social Democrata Alemão, viu aprovada sua proposta de instaurar o 8 de março como Dia Internacional das Mulheres. Essa referência histórica, por si só, já seria suficiente para demarcar a data com seu sentido principal: a luta. Foi nesse caminho que as mulheres foram para as ruas em todas as partes do mundo, inúmeras vezes: pelo direito ao voto, a salários iguais, para denunciar a violência cotidiana a que são submetidas, desde a humilhação doméstica à mais brutal violência física.

Em um país com uma das piores desigualdades sociais do mundo, com concentração de terra, renda e poder não mãos de uma elite, marcado profundamente pelo latifúndio e pela exploração imperialista, os impactos recaem fortemente sobre as mulheres. De acordo com uma pesquisa da UFRJ, 80% do total de pessoas sem acesso à renda no Brasil são mulheres. E são elas majoritariamente que são submetidas a jornadas duplas ou triplas de trabalho, encarado muitas vezes como ajuda e sem remuneração.

No campo, essa realidade fica ainda mais marcante. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), somente 1% das propriedades rurais do mundo estão em nome de mulheres. E na Reforma Agrária também o índice é baixo: menos de 15% das terras são registradas em nome de mulheres. Cerca de 6,5 milhões de agricultoras são analfabetas. O modelo de produção priorizado pelo Estado brasileiro revelado com detalhes pelo último Censo Agropecuário faz com que existam 15 milhões de sem-terra no país. Destes, no mínimo, 50% são mulheres. Por trás do grande número de pessoas sem acesso à terra, um dado do Censo expressa a contradição: apenas 1% dos proprietários de terras no Brasil detém 46% do território agricultável.

O agronegócio que recebe a maior parte dos investimentos públicos para a produção acumula mais um vergonhoso título para o Brasil. Depois de ser o principal consumidor de agrotóxicos, é agora o segundo país do mundo em área cultivada de transgênicos. Enquanto os países desenvolvidos seguem o caminho inverso, preocupando-se com a qualidade da alimentação, nossa população precisa se envenenar para garantir os lucros das transnacionais. Isso porque tentaram convencer o mundo que os transgênicos acabariam com a necessidade de pesticidas. Então como entender essa imensa quantidade de venenos para manter a produção transgênica? O Censo demonstrou que quase 80% dos proprietários rurais usam agrotóxico, muito mais do que o necessário. O imenso volume de herbicidas aplicados no Brasil contamina os solos, os mananciais e até mesmo o aqüífero Guarani. A contaminação chega até nós pela água que bebemos e pelos produtos agrícolas irrigados com a água contaminada.

Não faltam dados que comprovam os malefícios sobre a saúde humana dos agrotóxicos e dos transgênicos, muitas vezes sobre a mulher, como a contaminação do leite materno e impactos na fertilidade. Mas nada disso é motivo para o perverso modelo do agronegócio deixar de seguir seu rumo.

E por isso as mulheres camponesas se mobilizam, enfrentam a opressão e a exploração. Não aceitamos o silêncio. Todos os anos, assumimos a responsabilidade histórica legada pelas socialistas. Neste ano, nos organizamos na Jornada de Luta contra o Agronegócio e contra a Violência: por Reforma Agrária e Soberania Alimentar. Vamos para as ruas em todo o país colocar para a sociedade nosso projeto, nossa alternativa pela saúde, pela autonomia, pela igualdade, pelo fim da exploração. Nos somamos com as mulheres das cidades, que também travam há décadas lutas fundamentais para toda a sociedade brasileira. Sabemos que é este o único caminho possível para conquistar nossos direitos.

Fonte: MST Informa n° 180 - 05/03/2010 http://www.mst.org.br/

Pachamama



O documentário mostra a viagem do cineasta ao Peru e à Bolívia, onde encontra a realidade de povos historicamente excluídos do processo político de seus países. Pela primeira vez na história, buscam uma participação efetiva na construção do seu próprio destino.

8 DE MARÇO: DIA INTERNACIONAL DE LUTA DAS MULHERES

É muito comum encontrarmos pessoas explicando a violência e a opressão às mulheres ou como algo que ocorre desde o princípio da humanidade, sendo natural em todas as sociedades e buscando para isso argumentos dos mais diferentes possíveis, desde religiosos (a mulher é o fruto do pecado) até científicos (existem diferenças biológicas que explicam as atitudes de mulheres e homens); ou que esse processo é produto do capitalismo e aqui, tanto para aqueles que se posicionam à esquerda quanto para a direita, propõem-se soluções reducionistas para a questão de gênero. Mas é preciso dizer ainda que essas formas de encarar a questão podem aparecer muitas vezes compartilhadas e gerar uma confusão ainda maior que tem em si um conteúdo ideológico que não avança em nada a nossa luta. Pelo contrário reproduzem de forma mais intensa e sutil a exploração e a dominação das mulheres.

Assim é necessário esclarecer o terreno sob o qual se coloca a questão de gênero, ou seja, as relações entre homens e mulheres que na nossa perspectiva são construções sociais. A dominação e a exploração sobre as mulheres é um processo que assumiu diferentes formas ao longo da história da humanidade. Se na Grécia Antiga, por exemplo, em Atenas as mulheres não eram consideradas cidadãs dignas de participar da vida política da polis e serviam simplesmente à reprodução biológica da vida, em Esparta as mulheres tinham uma participação diferenciada, pois eram fundamentais na educação e, portanto na reprodução social da vida até os sete anos da criança, já que a cidade priorizava a educação militar. Já na Idade Média as mulheres vão aparecer na cena histórica como bem e passível de negociações econômicas; aparecem também como bruxas e serão caçadas pela Igreja durante a Inquisição, já que detinham conhecimentos adquiridos por conta de sua função social que desafiavam a ideologia dominante naquele momento.

De fato então temos sim a dominação e a exploração das mulheres como algo muito além do capitalismo, porque a primeira divisão do trabalho teve base na divisão sexual do trabalho, entre o homem direcionado à caça e a mulher restrita à reprodução da vida e aos cuidados da “casa”. Entretanto, o capitalismo vai se apropriar de maneira particular desse processo e assimilá-lo como um dos pilares da dominação de classe. O tripé Estado, Igreja e Família dão sustentação particular às relações sociais capitalistas de produção no sentido de garantir a propriedade privada e a acumulação de capital, restringindo às mulheres a uma condição de exploração e dominação ainda maior atualmente sob o véu da igualdade de direitos conquistada com a luta das mulheres durante o século XX. As mulheres agora inseridas do mercado de trabalho reproduzem antigas funções sociais como trabalho (doméstica, profissões ligadas à indústria têxtil e de alimentação) colaborando para a acumulação direta de capital ou ainda indireta nos casos em que ainda restrita ao lar são responsáveis pela reprodução da força de trabalho masculina. Em casos em que houve a feminização de profissões, como com professores e bancários no Brasil, serviu à redução dos salários já que ela participa do mercado de trabalho como Mao de obra barata. Portanto, se por um lado ser inserida no mercado de trabalho foi uma conquista, por outro foi uma forma de intensificar a exploração, articulando, portanto, a dimensão de classe com a dimensão de gênero.

Nesse sentido é importante lembrar que o dia 08 de março foi uma data sugerida por Clara Zetkin, uma comunista Alemã, durante a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em 1910 em decorrência das inúmeras manifestações que ocorriam no mundo inteiro propunha marcar a luta das mulheres por melhores condições de trabalho, fim da opressão e direito ao voto feminino. Por considerar o contexto histórico de sua criação e de seu desenvolvimento ao longo do século XX, devemos encarar o 08 de março como uma construção da luta das mulheres e não apenas como data comemorativa, bem como não pensá-lo somente como um dia, mas como resultado de um processo que deve ser permanentemente reavaliado entre seus progressos e retrocessos pelas feministas com objetivo de avançar nessa luta.

Mas é preciso lembrar que a luta feminista tem suas vertentes e aqui vamos defender não o feminismo burguês. A democracia burguesa promete e diz garantir a igualdade e a liberdade das mulheres, mas o que vemos na prática é que as mulheres ainda são escravas do trabalho doméstico, seja ele um dever de casa imposto socialmente ou uma profissão de fato; preenchem cada vez mais as fileiras do trabalho precarizado, com poucos ou quase nada de direito por conta dos mecanismos que o capitalismo encontra para explorar a classe trabalhadora (cooperativas, trabalho informal, etc.), se submetendo a salários inferiores aos dos homens nos mesmos cargos e sofrendo constantemente no ambiente de trabalho e nos espaços de organização política assédio sexual e discriminação; são levadas a reproduzir ideologicamente a educação machista e homofóbica que o Estado e as demais instituições sociais difundem por conta de que o processo de socialização é sutil, ao mesmo tempo em que violento; não têm garantido os direitos de reprodução sexual em termos de saúde e educação, seja em casos de prevenção à concepção como em casos de interrupção de gravidez, se submetendo a situações constrangedoras do ponto de vista psicológico e colocando sua vida em risco; são alvo constante de exploração sexual e violência doméstica, bem como estão constantemente expostas à mercantilização de seu corpo.

Enquanto comunistas, não queremos somente a igualdade de direitos. Não queremos que as nossas conquistas se reduzam à questão meramente jurídica, legal. Porque o capitalismo é a exploração do homem pelo homem e, portanto, as questões pertinentes às mulheres se potencializam por conta da dominação de classe. Lutamos pela libertação das mulheres e homens de toda e qualquer forma de dominação, subordinação, opressão, seja ela de gênero, etnia ou opção sexual, porque a nossa luta, guardada sua particularidade, é acima de tudo de classe, é em direção à revolução socialista. Nossa conquista deve ser no sentido de transformações objetivas e subjetivas que garantam a todos e todas as diferenças, sem que estas se traduzam em dominação e subordinação de um pelo outro.

Não compartilhamos também de um feminismo sexista porque não identificamos nosso inimigo no homem, mas sim o queremos nas fileiras não só das lutas de classes, como na luta pelo fim do machismo, da violência e opressão à mulher. Por tudo isso, não defendemos a organização independente de mulheres, sem vinculação partidária ou ideológica: a luta das mulheres é a parte integrante da luta de classes e, portanto, para que seja extinta a exploração sobre seu corpo e sua alma, deve ser uma luta revolucionária: OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER!

A luta das mulheres no século XXI ainda está em construção. Carrega todo o peso da história de luta das mulheres do mundo inteiro. Ainda traz no bojo da luta feminista socialista as mesmas bandeiras táticas protagonizadas pela Segunda Internacional, tais como direito a creche, salários iguais, direito ao aborto legal e seguro, fim da violência doméstica e da exploração sexual, luta pela paz dos povos oprimidos, entre outras. Bandeiras que ainda pertinentes devem ser enquadradas de acordo com o avanço da nossa luta, com a nossa conjuntura atual e com as demandas históricas que se impõem para a classe trabalhadora, ou seja, devem estar no escopo das lutas de classes, pois somente a extinção da dominação de classes promove a emancipação plena da mulher. Essa é uma contribuição inicial e necessária para que possamos garantir que a plena subversão da ordem e a construção de outra sociedade livre da exploração do trabalho pelo Capital, leve no bojo das lutas de classes a luta das mulheres: muito mais do que uma luta de gênero, por demandas específicas perfeitamente possíveis de serem apropriadas como bandeira do Capital, queremos uma luta de classes que supere as desigualdades de gênero imbricadas nas desigualdades de classes. Que se mantenham as diferenças, porque somos diferentes, mas que elas jamais se reproduzam nas nossas lutas em termos de dominação e exploração. É uma luta contra o sectarismo, contra a tentativa de guetizar o específico que é uma luta geral de nossa classe. Uma luta das mulheres e dos homens que devem lutar pela Revolução socialista e feminista.

Fonte: Nota Política do PCB

sábado, 6 de março de 2010

A Razão segundo o pensamento de Marx e Engels

"É verdade que Marx e Engels reivindicavam eles próprios a Razão e a tradição do racionalismo ocidental; é suficiente recordar sua afirmação bem conhecida segundo a qual o proletariado é o herdeiro da filosofia alemã. (...) Para eles a Razão não pode ser dissociada da luta de classes; em cada período histórico, ela assume a figura concreta de uma classe social concreta. Na sociedade capitalista moderna, não há soluções racionais "evidentes em si mesmas"; as soluções socialistas para realizar os valores humanistas não são evidentes senão do ponto de vista racional do proletariado. Estas soluções não podem ser deduzidas diretamente da Razão enquanto tal, mas de interesses racionais decorrentes da situação histórica objetiva do proletariado na sociedade capitalista. Elas são "universais" na medida em que o proletariado é a classe universal, a classe sem interesses particulares que aspira à abolição das classes em geral."


Michael Löwy em As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen. 8 ed. São Paulo: Cortez, 2003, p. 162.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Cuba: o suicídio de um "dissidente"

Atilio A. Boron

Em MONCADA
http://www.rtvneruda.com/

Exibindo novamente sua proverbial falta de escrúpulos, o jornal El Pais de Madrid divulgou em seu sítio eletrônico no dia 27 de fevereiro que "a dissidência cubana segue mobilizada pela morte do prisioneiro de consciência Orlando Zapata Tamayo." Afirmação tão definitiva quanto falsa, cuja intenção não é outra senão levar água para o moinho da campanha permanente de ataques e agressões contra a Revolução Cubana, e alimentar os preconceitos de uma grande parte dos leitores desse jornal, que nem sempre têm tempo, possibilidade ou interesse em verificar a veracidade das informações que lhes proporcionam os grandes meios de comunicação.

Felizmente, uma oportuna nota publicada pelo prestigiado intelectual cubano Enrique Ubieta Gómez permite lançar luz sobre este doloroso episódio e desmontar a mentira urdida pelo jornal madrilenho:

(http://www.cubadebate.cu/opinion/2010/02/26/Orlando-shoe-Tamayo-morte-util-de-la-revolução/).

A nota mostra que o suposto "prisioneiro de consciência" não o era; por isso nunca figurou na lista dos "presos políticos", elaborado pela já dissolvida Comissão de Direitos Humanos da ONU em 2003, substituída por causa de sérios vícios e de sua manifesta arbitrariedade à serviço dos interesses dos Estados Unidos pelo Conselho de Direitos Humanos. Como pode um "prisioneiro de consciência", cuja identificação com o projeto político levou-o a imolar-se para não trair suas ideias, teria passado despercebido pelo olhar atento da Comissão?

A resposta é simples: Zapata Tamayo, diz-nos Ubieta Gómez, era um preso comum cujos problemas com a justiça começaram em 1988, ou seja, quinze anos antes da confecção da famosos lista. Em sua longa carreira delinquente, foi processado por "violação de domicílio" (1993), "lesões menos graves" (2000), "fraude" (2000), "lesão corporal e posse de arma branca" (2000: lesão e fratura do crânio de uma vítima com um facão), "conduta desordeira" e "desordem pública" (2002), entre outras causas que, como pode ser observado, não tem nada a ver com protesto político e sim com crimes comuns. Em uma demonstração de generosidade, a justiça cubana considerou que Zapata Tamayo fosse libertado sob fiança em 9 de março de 2003. No entanto, poucos dias após, reincidiria em seus crimes, e foi preso e condenado a três anos de prisão. No entanto, sua sentença foi prorrogada por causa de seu comportamento agressivo na prisão. E é neste quadro que se produz sua milagrosa metamorfose: o meliante preso várias vezes por ter cometido inúmeros crimes, torna-se um ardente cidadão que decidiu dedicar sua vida à promoção da "liberdade" e da "democracia" em Cuba. Astutamente recrutado por setores da “dissidência política” cubana, sempre disposta a buscar um mártir nas suas magras fileiras, o impulsionou irresponsavelmente e com total desrespeito a sua pessoa, a realizar uma greve de fome até o fim, em troca de promessas desconhecidas ou contra-partidas de todo tipo que, certamente, o tempo em breve esclarecerá.

O caso desta vítima é instrutivo sobre o caráter moral de quem luta para alcançar a "mudança de regime" em Cuba; também a estatura moral dos meios de comunicação como El País e outros similares, que põem seu imenso poder midiático, formador e deformador de consciências, a serviço das mais ignóbeis causas. Nada dizem, por exemplo, que a desgraçada vida do suicida foi vilmente manipulada pela “dissidência” e seus chefes, que pretendem passar como um "prisioneiro de consciência" quem nada mais foi do que um delinquente comum. Também ocultam que a sequiosa "dissidência política" é, de fato, algo muito diferente: o Cavalo de Tróia da desejada restauração da dominação imperialista em Cuba. "Dissidentes" são chamados aqueles que foram filmados enquanto recebiam grandes somas de dinheiro na Seção de Interesses dos Estados Unidos em Havana para financiar suas atividades subversivas contra a constituição e as leis da República. Ou seja, para trabalhar conjuntamente com o governo de um país que há meio século declarou guerra contra Cuba, que mantém um criminoso bloqueio contra a ilha unanimemente condenado pela comunidade internacional e que fez mais de inúmeras tentativas de assassinar o líder da revolução cubana. Como Washington reagiria se hoje surpreendesse um grupo de cidadãos recebendo quantias generosas de dinheiro, equipamentos de comunicação e conselhos práticos sobre como derrubar o governo dos EUA na embaixada afegã em Washington? Haveria considerado o El País a esses subversivos como "dissidentes políticos" ou como traidores de sua pátria? Além disso, ao contrário do que aconteceu com os mercenários cubanos, é mais provável que os estadunidenses seriam imediatamente executados, acusados do infame crime de traição à pátria por sua flagrante colaboração com uma potência agressora. Por muito menos do que isso, a "democracia norte-americana" enviou para a cadeira elétrica o casal Julius e Ethel Rosenberg em 1953, em um julgamento (como o agora perpetrado contra os "5") que foi uma verdadeira caricatura da justiça. Porém, nada disso acontece em Cuba. E nada disso é informado à opinião pública mundial. Não há prisões secretas na ilha, nem a legalização da tortura, ou a transferência de prisioneiros para serem torturados em terceiros países, nem desaparecidos, nem voos ilegais ou detenções arbitrárias, sem prazos ou julgamentos, e tantas outras práticas que são rotineiramente executadas nas masmorras estadunidenses, e que são sistematicamente escondidas e silenciadas pela “imprensa séria", cuja suposta missão é informar. Para a imprensa do império, como o El País, tudo isso são pormenores sem importância. Negócios são negócios, e se há necessidade de mentir, se mente uma e cem vezes, com a certeza que outorga a impunidade que lhe foi concedida pelo desamparo, credulidade ou apatia dos seus leitores, letárgicos pela propaganda e cuidadosamente desinformados e brutalizados pela grande mídia Em uma passagem brilhante d'O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte, Marx disse que, diante de sua orfandade, a contra-revolução bonapartista extraia seus quadros e heróis do lumpenproletariado de Paris. O mesmo acontece hoje com os auto-proclamados campeões da liberdade e da democracia em Cuba e seus amigos na “imprensa séria" internacional. Por isso, se é necessário dizer que Barrabás é Jesus, se diz. E se há que dizer que Zapata Tamayo era um "prisioneiro de consciência", também se diz, e fim de papo.

terça-feira, 2 de março de 2010

Homenagem à memória de Luiz Carlos Prestes


Caros amigos.

No próximo dia 7 de março, cumprem-se 20 anos do falecimento de Luiz Carlos Prestes. Vamos homenagear sua memória junto à sua sepultura no Cemitério São João Batista, entrada principal, Rua Gen. Polidoro(Botafogo). Horário: 10 horas da manhã do dia 7 de março, domingo.

Anita L. Prestes

segunda-feira, 1 de março de 2010

Zapata: um morto útil?

Por Enrique Ubieta

A absoluta carência de mártires de que padece a contra-revolução cubana é proporcional a sua falta de escrúpulos. É difícil morrer em Cuba, não porque as expectativas de vida sejam as de Primeiro Mundo – ninguém morre de fome, ainda que pese a carência de recursos, nem de enfermidades curáveis –, porque impera a lei e a honestidade.

As Damas de Branco e Yoani podem ser detidas e julgadas segundo as leis vigentes – em nenhum país pode violarem-se as leis: receber dinheiro e colaborar com a embaixada do Irã (um país considerado como inimigo) nos Estados Unidos, por exemplo, pode acarretar a perda de todos os direitos cidadãos naquela nação –, porém elas sabem que em Cuba ninguém desaparece, ninguém é assassinado.

Além do mais, um Zapata entregou sua vida por um ideal que prioriza a felicidade dos demais, não por um que prioriza a própria. Assim foi a lamentável morte de Orlando Zapata, um preso comum – de extenso histórico de delitos, em nada vinculado à política –, exultada intimamente por seus “parentes”. Transformado, depois de muitas e vindas à prisão, em “ativista político”, Zapata foi o candidato perfeito para a auto-execução.

Era um homem “dispensável” para os “grupelhos” e fácil de convencer para que persistisse em uma greve de fome absurda, com pedidos impossíveis (cozinha e telefone pessoal na cela) que nenhum dos reais cabeças teve coragem de sustentar.

Cada uma das greves anteriores havia sido anunciada pelos instigadores como uma provável morte, porém os grevistas sempre desistiam em bom estado de saúde. Instigado e alentado a prosseguir até a morte – esses mercenários lavam sua mãos diante da possibilidade de que se morressem, apesar do esforço incansável dos médicos –, o cadáver de Zapata é agora exibido com cinismo como troféu coletivo.

Como abutres estavam os meios de comunicações – os mercenários e a direita internacional –, rondavam em torno do moribundo. Seu falecimento é um banquete. Um asco de espetáculo. Porque aqueles que escrevem sobre ele não lastimam a morte de um ser humano – em um país sem mortes extra-judiciais –, mas a comemoram quase com alegria e a utilizam com premeditados fins políticos. O caso de Zapata me lembra o de Pánfilo: os dois foram manipulados e, de certa forma, conduzidos à auto-destruição de forma premeditada, para satisfazer necessidades políticas alheias: um, levado a uma persistente greve de fome de 85 dias (já havia realizado outras anteriormente que afetaram a sua saúde); o outro, em pleno processo de desintoxicação alcoólica, foi convidado a beber para que dissesse na frente do magistrado o que queriam ouvir.

Pergunto-me se isso não é uma acusação contra quem agora se apropria de sua “causa”. Têm razão ao dizer que foi um assassinato, porém os meios de comunicação escondem o verdadeiro assassino: os grupelhos cubanos e seus mentores transnacionais. Zapata foi assassinado pela contra-revolução.

Tradução: Maria Fernanda Magalhães Scelza

O fascismo sob um olhar latino-americano

As origens do fascismo

Autor: José Carlos Mariátegui


Tradução e organização: Luiz Bernardo Pericás
Edição: Alameda (tel. 11 3012-2400)
Preço: R$ 45,00 (325 páginas)
ISBN: 978-85-98325-74-3
Formato: 14x21- off set- brochura- 0,390 kg


As origens do fascismo

O fascismo sob um olhar latino-americano

As origens do fascismo, fenômeno político que exerceu enorme influência em alguns países ao longo do século XX, foram analisadas por diversos estudiosos. Entre os teóricos é fundamental o olhar latino-americano de José Carlos Mariátegui, um dos primeiros a observar e acompanhar de perto os eventos ocorridos na Itália, além de tentar proporcionar uma interpretação precisa e acurada deste movimento singular, quando era jornalista e escrevia para um jornal peruano.

Mariátegui, em busca de um clima mais adequado para sua frágil saúde, mudou-se para a Itália em 1919 e encontrou um país marcado por várias experiências históricas. O Risorgimento possibilitara uma unidade geográfica, construída e idealizada pela burguesia italiana, que deixou de lado o elemento popular. A contínua fratura do norte desenvolvido e do sul agrário e dependente – o ponto nevrálgico da estrutura econômica do país – manteve-se praticamente intacta durante toda a segunda metade do século XIX. A Itália, unida a partir do ideal cultural mazziniano através do ímpeto diplomático e militar de líderes políticos e revolucionários, como o Conde de Cavour e Giuseppe Garibaldi, ainda não atingira a maioria da população, que não falava o italiano ainda e preferia dialetos regionais.

O revolucionário peruano mostra em seus artigos, agora reunidos neste livro, que o Estado italiano surgido do Risorgimento era politicamente fraco, conservador e burocratizado e mantinha quase que inalteradas as relações e os compromissos entre a burguesia e os setores latifundiários. A Itália aparecia no cenário europeu sem força política, militar ou econômica diante das grandes potências industriais europeias. Porém uma força avassaladora estava para tomar o país: o fascismo de Benito Mussolini. Nesta série de ensaios que o revolucionário peruano Mariátegui publicou na época, agora reunidos pelo historiador Luís Bernardo Pericás, vemos o fascismo crescer e se tornar a maior força política da Itália. Dessa forma, este é um livro fundamental para se entender uma das maiores ditaduras do nosso tempo.

Sobre o organizador: Luiz Bernardo Pericás é doutor em História pela USP, pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México) e História pela Universidade do Texas. Autor de Che Guevara e a luta revolucionária na Bolívia e Um andarilho das Américas.